whats (43) 9 9141.1750 (43) 9 9156.9145

DÁ PARA PERDOAR LEANDRO PELO QUE ELE FEZ E FOI?

por Marcelo Frazão

LONDRINA – Essa é a história de Leanderson José de Almeida, 33, e o dia em que ele bateu à porta de casa pedindo para arrancar o mato que cresce no limbo entre o asfalto e o meio-fio da esquina onde moro, na zona oeste de Londrina.

Leia e diga se faz algum sentido para você.

Quando a gente mora em apartamento ou condomínio fechado, existe um isolamento da rua imposto pela elementaridade dos muros, das portarias e dos controles, dos interfones e dos andares dos edifícios.

Só que quem mora em bairro comum em Londrina, aberto, também se isola por escolha.

É relativamente simples não interagir. Fácil deixar de atender à porta, às palmas. Se não espera ninguém em horário e data combinados, basta “não ouvir” a campainha.

Via meus vizinhos fazendo isso. Confessei ter também feito muitas vezes. Ainda mais com a crise, os pleitos na porta de casa são uma constante romaria. Vem a desculpa: “é mpossível” dar o que todos precisam. E por ser constrangedor atender a um pedido com um envergonhado não, melhor se esconder, fingir… bem mais fácil.

Dependendo da “configuração” da vida de cada um, creio que mora em nós moradores um certo afastamento da rua.

Às vezes por questão de segurança. Às vezes por pura preguiça, omissão e falta de vontade mesmo.

Intramuros, ou dentro dos andares seguros – ou mesmo nas nossas casas em bairros abertos – nos distanciamos.

Sempre dá para sacar uma desculpa e não ir ao portão atender pessoas que, na maioria das vezes, só pedem ajuda.

Dinheiro, comida, roupa, doações. Alguma coisa. Qualquer coisa.

Outra parte vende algo: vassouras, panos de prato, frutas, pamonhas (silenciosas, sem carro de som).

E ainda ofertam-se vários pequenos consertos e serviços: cortar o jardim, arrumar a calçada, podar a árvore, consertar um muro caindo… qualquer pequena observação sobre o necessário a ser feito no imóvel pode ser a senha para tocar a campainha, bater palmas e oferecer um serviço ao morador da casa.

Todos como disse, devidamente ignorado.

“- Mas Marcelo, não dá para saber se o mel do vendedor é legítimo. Nem se o pedido de dinheiro para remédio ou exame é só um golpe repetidamente encenado. E se for alguém monitorando algo?

“- E se… e se…”

Bom, certamente não há como avaliar previamente se todo mundo que chama em palmas e que toca a campainha realmente merece ser atendido.

E, na rotina de violência como regra de funcionamento da cidade, abrir portas, atender, pode tornar-se, sobretudo, um risco.

No entanto, à revelia da realidade, faria diferente sempre que desse – e mostraria aqui no Tp1 o que acontece quando a gente se abre para uma cidade como Londrina.

Fato é que acabei conhecendo gentes como o sêo João Barros, dos últimos consertadores de guarda-chuvas de Londrina (já escrevi antes sobre isso). Falei com o pessoal de uma igreja – eles foram tão rápidos que até fiquei surpreso porque me sentia preparado para a conversa. Conheci um ex-cortador de cana que catava lixo na rua em Londrina – e tocou a minha porta pedindo permissão para ficar com algo (uma calha de alumínio) que havia deixado encostado rente no muro, para quem quisesse levar.

Três dias atrás ouvi as palmas e fui ver quem era. Era o Leanderson. “Mas pode me chamar de Leandro” – saberia mais tarde.

Queria tirar o mato que insiste entre o asfalto esfarelento e o meio-fio da calçada. Se você observar, essa parte – entre meio-fio e início do asfalto – é uma borda de rua que parece não pertencer nem ao morador, nem à municipalidade.

Ali, dependendo da (má) conservação da rua, pode virar uma floresta de mato, flores e lixo acumulado. Às vezes até fico feliz que essa vegetação que antecede a entrada do bueiro retém lixo que as pessoas jogam. É interessante como um problema pode solucionar parte de outro problema. Só que não pode permanecer… baita serviço chato de fazer.

Neste dia, após ouvir o pedido para o serviço que era meu, pareceu razoável pagar.

“- Meu, mas quem é você? Onde você mora? Por que arranca mato de porta em porta, desse jeito?

“- Ô amigo, se começar a contar a minha vida …”, disse, na lata.

Antes, me pediu uma faquinha para melhorar o tira-mato.

Parte do limbo onde nasce o mato – já sem o mato – entre o asfalto e a emenda do meio-fio

Saquei o celular e gravei esse depoimento de um morador de Londrina para o Tp1.

Me lembrei dos vários amigos e conhecidos e das notícias incessantes com relatos – que vi e ouvi, nos últimos anos, de vítimas violentadas, agredidas, roubadas, cujas casas foram aterrorizadas em invasões por gente como ele.

Na verdade, por ele.

Leandro era um criminoso violento, assaltante dos piores.

“- Como era isso. Me fala.”

“- Saía a pé ou de moto, armado, (com mais um) e ia na lôca. Ficava zanzando pelos bairros e quando alguém tava entrando ou saindo, de carro, de a pé, tentava cair para dentro junto”.

“- Era violento, nervoso, violento demais. Agredia, xingava, não dava chance para a vítima”.

33 anos, 12 anos de cadeia em cadeia. Passou pela Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), Casa de Custódia, Penitenciária Central do Estado (PCE), de Curitiba.

Esteve condenado por três assaltos e dois furtos. Fugiu, levou tiro, quase morreu. Sabe-se lá como, tem corpo “fechado”, com marcas de facada e bala.

Faz dois anos e pouco está livre. Imagine o que 12 anos de cana não fazem com qualquer sujeito. No caso dele, Leandro fez questão de demonstrar que evoluiu.

Como ler a alma de alguém? Tudo o que pude fazer foi ouvir até me certificar de que poderia acreditar. E eu acreditei no Leandro. Para mim, a feição no rosto dele, a energia dele não era mais a de um cara cruel como ele contava.

“Sinto vergonha do que fiz, do que já fui”.

E, a poucos minutos do fim da entrevista, o rapaz fez um gesto surpreendente para me demonstrar seu esforço.

Um esforço que quem é abordado por ele certamente tem dificuldade de enxergar em um cara todo tatuado, vestido como dá, sujo, com uma história cruel, a perambular à cata de pequenos serviços – sem nem mal saber direito se expressar.

O gesto simbólico tenta materializar – para mim que o questionava – uma nova pessoa que todo dia ele constrói à margem de uma cidade como a nossa. É aqui em Londrina.

Leanderson José de Almeida, 33 – “mas pode me chamar de Leandro”

Fora o pagamento pelo serviço, não pediu mais nada para mim. Só revelou querer algo que antes já o fizera sentir mais vivo e se tornara parte da própria autodescoberta.

Algo muito simples e que o fez renascer como gente. Leandro gostaria de voltar a ter um pirógrafo e uns poucos materiais para desenhar em madeira e vender os quadros que aprendeu a criar no “tratamento” durante a cadeia.

Diante dessa história, não consegui ter outra decisão que não a de viabilizar um pirógrafo de qualquer maneira.

Gravei o depoimento dele ao mesmo tempo em que conhecia a história. Sem entrevistá-lo detalhadamente antes, de forma que a minha surpresa e descoberta seja a sua também que assista. Queria tornar possível QUASE a mesma percepção que tive ao ouvir diretamente a história.

Essa é a interação do Leandro comigo captada pela câmera.

Dê play. Após testemunhar o depoimento dele, quero saber se você pode estar nessa comigo.

Me envie uma mensagem dizendo se, um passo à frente, pode ajudar Leandro a não se tornar parte dos 30% de criminosos que voltam a cair em cana.

Nunca vi nada que ele tenha criado. Só sei que o primeiro quadro produzido com o equipamento vai ser sorteado entre os TpÚnicos que ajudaram.

Calculo que doações únicas entre R$ 15 e R$ 30 sejam suficientes para o pirógrafo e materiais que ele necessite – além de um pouco de dinheiro para reforçar o bico de arrancar mato até que venda seus primeiros quadros.

Mande uma mensagem em tp1@tp1.com.br. Se acreditar que vale a pena atender às palmas e campainha, em breve respondo com os detalhes de como fazer a contribuição.

Somos Londrina. Somos Todos por Um.

 

One thought on “DÁ PARA PERDOAR LEANDRO PELO QUE ELE FEZ E FOI?

  1. ABILIO WOLFF JUNIOR

    Mil histórias sem fim, (o titulo é de Malba Tahan). No inicio de 1960, por iniciativa do professor Zaqueu de Mello (Zaqueu o que subiu na árvore para ver JESUS-Bíblia) deu-se em Londrina um estudo denominado “UNIÃO FRATERNAL BRASILEIRA”. Proponha uma ideia para por fim a miséria. Ninguém se lembra ou sabe. Quando completou 40 ou 50 anos, não lembro ao certo, a Folha de Londrina, deu uma pequena nota: Londrina a 40 ou 50 anos passados. Fui a Folha, conversei com Walmor Macarini, disse da importância do movimento. Colocou um reporter a disposição e disse-me para colocar o que fosse importante – saio uma pagina inteira. Sera que isso interessa a alguém ? Uma ideia pratica para acabar com a miséria ? Participei desse movimentos, estou a disposição………

Leave a Reply