O Shokunin e nós

Por Carlos Mattos –
Quanto tempo você está disposto a dedicar para dominar sua profissão? Esta é a
pergunta de um milhão de dólares. Existem muitos desenvolvedores no mundo, e há
um único traço que separa um grande desenvolvedor, de um desenvolvedor mediano:
dedicação ao trabalho.

Confira o Manifesto do Artesão de Software:

“Como aspirantes a Artesãos de Software, estamos elevando o nível do
desenvolvimento do software profissional, praticando-o e ajudando outros a aprender
o ofício. Através deste trabalho, passamos a valorizar:
Não apenas o software funcionando, mas também o software bem construído.
Não apenas respondendo a mudanças, mas também constantemente adicionando valor.
Não só indivíduos e interações, mas também uma comunidade de profissionais.
Não só colaboração com o cliente, mas também parcerias produtivas.
Ou seja, em busca dos itens à esquerda, achamos os itens da direita indispensáveis ​​”.

A grandeza, em qualquer busca criativa, exige dedicação. Por exemplo, se você quer
ser escritor, você tem que fazer todas as coisas que tornam os escritores excelentes.
Você deve escrever, e quero dizer, escrever muito. Você só evolui como escritor,
fazendo isso. Você também deve ler. Como você pode esperar ser um grande escritor,
se não dedicar um tempo para ler o trabalho de outras pessoas? Você também deve
procurar e receber críticas.

É somente dedicando-se a ser um estudante de todas as formas de um ofício, que você pode alcançar a grandeza. Isso é verdade em qualquer empreendimento criativo. Quer ser cantor? Cante. Quer ser pintor? Pinte. Quer ser fotógrafo? Fotografe. Quer ser um chef? Cozinhe!

Um bom exemplo de busca pela excelência, pode ser encontrado no oriente. Os
japoneses se concentram na perfeição mesmo na tarefa mais simples. Em qualquer
parte do Japão, todo prestador de serviço está focado em seu trabalho, e procura
garantir uma ótima experiência ao cliente. Não apenas sendo bons em fazer o que
fazem, os japoneses realmente inovaram nos processos diários e construíram um
modelo, conhecido como modelo Shokunin.

A palavra japonesa Shokunin é definida pelo dicionário japonês como
artesão ou ‘artista’.  Mas tal descrição literal, não expressa plenamente o significado mais profundo. O aprendiz japonês é ensinado que Shokunin significa não apenas possuir habilidades
técnicas, mas também implica uma atitude e consciência social. Shokunin tem uma obrigação social de trabalhar o seu melhor, para o bem-estar geral do povo. Esta obrigação é espiritual e material, não importa o que é, o Shokunin tem a responsabilidade de cumprir os requisitos.

O conceito de Shokunin como artesão ou artista é muito interessante, mas é a
frase “O Shokunin tem obrigação social de trabalhar o seu melhor, para o bem-estar
geral das pessoas”  que realmente me chama a atenção. É uma declaração
verdadeiramente impressionante. Isto significa que quando você alcança a grandeza,
você tem uma obrigação para com a comunidade que você serve.

Eu sempre procuro as razões que me fazem gostar de ser um desenvolvedor de
software, e acredito que deve ter algo a ver com Shokunin. O desenvolvimento de
software é uma indústria de serviços, e é nossa responsabilidade fornecer um produto
que, em última análise, melhore a vida das pessoas.

Uma das minhas atividades favoritas é observar as pessoas usando o software que
criei. Às vezes, o software é chato e entediante, como um módulo de contabilidade.
Outras vezes, é algo que torna o trabalho ou a vida de uma pessoa realmente melhor.

São momentos em que um usuário diz “Obrigado, isso realmente ajudou”, que
cumprimos nossas obrigações como um membro da equipe. Então, agora você precisa se perguntar: você tem a dedicação para conquistar o status de Shokunin?


Carlos Mattos é pai, professor, escritor e palestrante, apaixonado por tecnologia.
Atua na área de desenvolvimento de software para o mercado corporativo desde
1998. Nomeado pela Microsoft como MVP por 12 anos consecutivos (2003-2016)
e como Microsoft Regional Director (2017-2018) em reconhecimento às suas
contribuições para as comunidades técnicas e acadêmicas.
Mattos é Chief Architect e Head of Technology and Innovation na GFT.

Desventuras e unicórnios no mundo corporativo

Por Carlos Mattos –

Não é todo dia que nasce um unicórnio, um Bill Gates ou Steve Jobs. Os
recém-egressos das universidades parecem, no entanto, ter essa visão
distorcida ao chegar ao mercado profissional. E precisamos romper com
essa percepção.

O bombardeio de informações(com cases de sucesso pipocando), pode ser nocivo ao desenvolvimento da carreira e desmotivar rapidamente no meio corporativo.

Isso porque, quando chegam a uma empresa, não estão preparados, e não
têm amplitude para entender as possibilidades e necessidades do mercado.
O mindset, como costumo brincar, é o de um desenvolvedor de startup com

unicórnios na cabeça – sonhando em criar uma aplicação que ninguém
pensou e enriquecer rapidamente. Quando isso não ocorre, surge
imediatamente a frustração.

Há um conceito limitado sobre empreendedorismo, onde os jovens
assumem que empreender é abrir uma empresa. Contudo, o conceito de
empreendedorismo é muito mais amplo. Empreender é sobre enxergar as
oportunidades e transformá-las em ação com o objetivo de contribuir com
a evolução da sua empresa, aprimoramento de um processo, ou criação de
uma nova área. Ou seja, um conceito muito maior, mais amplo, mas que
tem sido diminuído por uma visão menor, mais e mais restrita.

Isso se traduz também na postura de chegada ao ambiente corporativo.
Muitas vezes, o jovem profissional, confunde conhecimento técnico com
senioridade, outro tema bastante controverso nesta fase inicial da sua
carreira. Por exemplo, um desenvolvedor, recém-chegado ao mercado de
trabalho, com sólidos conhecimentos numa linguagem de programação, se
apresenta como um desenvolvedor sênior. Entretanto, ele não teve
oportunidade de aplicar seu conhecimento técnico em projetos reais.

A senioridade é conquistada com a experiência que você só adquire no dia a
dia, entregando projetos, sofrendo com as dificuldades, falhas e limitações dos colegas e dos clientes. Esta experiência é essencial. Ela desenvolve habilidades para, no futuro, permitir o gerenciamento de situações complexas.

Os profissionais, no entanto, chegam achando que tudo está perfeito. E isso é muito mais utópico do que real. Como resultado, muitos
acabam deixando a área ou não entendem o porquê de não conseguirem
posição no mercado.

E como enfrentar essa realidade? Há uma frase de Thomas Edison que
gosto muito e que ajuda a entender o caminho a seguir: “Excelentes
oportunidades são desperdiçadas pela maioria das pessoas, porque elas se
apresentam de forma simples e parecem com trabalho”.

Para construir uma carreira de sucesso, é preciso trabalhar duro, mais rápido, e mais eficiente.
Isso demanda tempo, e não ocorrerá logo após a saída da universidade. A
geração pós-86, porém, têm características mais imediatistas e não está
preparada para lidar com isso.

Para mudar esse cenário, os profissionais precisam entender que são os
principais responsáveis pela criação do sucesso ou fracasso, como escreve
Larry Winget nos livros “It´s called Work for a reason” e “Shut up, stop
whining and get a life” (em tradução livre ‘Chama-se Trabalho por uma
razão’ e “Cale-se, pare de choramingar e tenha uma vida’).

É preciso dedicação, aprendizado de novas tecnologias, linguagens, estar atento às
oportunidades. O inglês, por exemplo, é uma grande dificuldade no
país. Muitos profissionais leem documentos técnicos, mas não conseguem
estabelecer um diálogo neste idioma. Em uma reunião, com clientes
internacionais, não dá para se apoiar apenas no inglês técnico porque é
preciso debater com o cliente, argumentar e justificar as soluções
propostas.

Além disso, como demonstra estudo recente do LinkedIn com mais de 3 mil
pesquisados, as ‘soft skills’, como comunicação, liderança, estratégia e auto-
gestão são mais importantes que os ‘hard skills’. O profissional não alcança
um cargo de arquiteto sênior se não tiver capacidade e a habilidade de
argumentação e defesa da solução proposta para um projeto. Habilidades
de redação e apresentação são igualmente importantes. Com soft skills
limitados, alguns profissionais acabam ficando estagnados mesmo
possuindo grande conhecimento técnico.

O desenvolvimento dessas habilidades é tão importante quanto dominar uma nova linguagem de
programação. É hora de tirar o unicórnio da cabeça e colocar a mão na
massa.

Carlos Mattos é pai, professor, escritor e palestrante, apaixonado por tecnologia e colaborador do Tp1. Atua na área de desenvolvimento de software para o mercado corporativo desde
1998. Nomeado pela Microsoft como MVP por 12 anos consecutivos (2003-2016)
e como Microsoft Regional Director (2017-2018) em reconhecimento às suas
contribuições para as comunidades técnicas e acadêmicas.
Mattos é Chief Architect e Head of Technology and Innovation na GFT.