Paulo Freire encontra o Curupira

Se tem um justiceiro que protege a mata, é o Curupira.
Com ele, não adianta espingarda, valentia ou cara feia.
Se você fizer mal à floresta, fique certo de que ele vai aparecer.
E, às vezes, o Curupira ganha até a ajuda dos homens contra os agressores da natureza.
Foi o que aconteceu com o violeiro Paulo Freire, que contou tudinho para o público que esteve no 8º Encontro de Contadores de Histórias de Londrina, o Ecoh, realizado em março.
Vai vendo…
 

PRESTE ATENÇÃO AQUI: BRASÍLIA JÁ ERA. BOLSONARO E LULA NÃO VÃO TE SALVAR

por Marcelo Frazão

Londrina – Existem algumas maneiras de reconstruir (ou destruir de vez) um país.

Tocar fogo em tudo, apostar em diretas já (mesmo que a menos de um ano do fim do mandato), esperar que Temer, Joesley,  Dilma, Lula, Marcelo Odebrecht ou Bolsonaro – e Marina, Dória, Ciro, Joaquim Barbosa, Luciano Huck ou qualquer coisa dessas – resolvam nossas questões.

Essa gente não está nem aí para você. Se manque.

Sinto intolerância à espera de soluções por parte de quem, à esquerda e à direita, sempre nos chicoteou e usurpou.

O que vou dizer não é sobre fazer passeatas e pressionar governos – algo que deve ser feito sempre.

Em verdade, não há como imaginar que a minha e a sua vida dependam desse foco de atenção que nos consome sem resposta. Vivemos em um SISTEMA (e não em um esquema) de corrupção.

Pode gastar todo o seu repertório de indignação no facebook.

Pode ir para passeata pacífica que qualquer governo vai te apoiar e garantir seu “livre direito à manifestação”. Esgoele-se de gritar com seu cartaz de bolso no meio da multidão esperançosa… e volte para casa para tudo permanecer igual.

Ou então façamos uma manifestação violenta e sejamos drasticamente reprimidos pela PM e pelo Exército. É tiro. É porrada. É bomba. E isso você não aguenta porque o monopólio do uso da força faz do Estado o maior especialista em te reprimir.

Não confunda o que vou falar com ficar parado e aceitar a realidade. Mas fica o alerta para que aprendamos, em algum momento da curva, a não apostar todas as energias em uma resposta só.

No Tp1, cultivamos uma certeza: nenhuma solução para nos tornar melhor virá de Brasília.  Aquilo ali já era.

No entanto, sinta-se livre para acreditar que algo realmente importante possa vir de lá.

Antigamente eu supunha que toda obra ou serviço público tinha propina e gerava algum esquema para alguém.

Era só cutucar que sempre saía algo estranho.

Quão infantil meu pensamento!

Na verdade, obras e serviços públicos, regra geral, SÓ EXISTEM quando propiciam formas de subtrair recursos além da conta para quem nem deveria chegar perto de dinheiro – como os políticos.

A melhor maneira de recriar esperança e construir a realidade que precisamos, primeiro, é admitir, entre nós, que temos pessoas suficientes sentindo o desafio e a necessidade urgente de transformações. Sinto Londrina assim.

Mas não são transformações para alguém fazer por nós. Ninguém virá.

Você pode achar pueril o que afirmo, frente ao gravíssimo estado de coisas em que nos encontramos.

A mim, esta foto abaixo é a expressão de parte de uma realidade possível de erguer, apesar de tudo, com quem aceita transformar fazendo a sua própria metanóia.

Essa turma se encontrou, a convite do Tp1, durante um fim de semana, para aprender um método de mediação de conversas. Essas conversas acontecem em rodas de leitura.

E a gente faz um país…

O método da Fundação Geniantis é poderoso: a leitura é o grande pretexto para as pessoas estarem juntas, se reconhecendo ao longo de vários encontros, ouvindo e construindo uns com os outros.

Quando a gente aprende a conversar, faz. Quando a gente aprende a estar junto, isso gera ideias, interações, negócios, desafios, trocas pessoais.

Põe aí na busca do Google para você sentir o peso de decidir-se por uma metanóia.

Quando você “toma” metanóia, simplesmente para de esperar que alguém faça por você aquilo que você mesmo deve fazer.

Acredito no poder das cidades e dos moradores das aglomerações urbanas. Tenho certeza que se há algo por começar, deveria começar por Londrina.

Aqui somos equipados com condições que outras cidades nem sonham em ter. E temos um poder: o poder de ser morador de Londrina.

Agora voltemos ao momento que nos dói.

Lembre junto comigo.

Primeiro vieram as marcas de roupa – da Marisa à Zara – e nos mostraram a face oculta da escravidão nas etiquetas dos casacos que usamos.

Depois, a Odebrecht e a OAS esfregam na nossa cara como se faz corrupção com o futebol nacional e a Copa do Mundo. E empurraram, goela abaixo, gigantescas obras – atingindo até o coração do Brasil, com hidrelétricas em plena Amazônia. Foi como se fraudassem o nosso arroz-com-feijão.

Chega a Operação Carne Fraca para comprovar como aquele sanduichinho gostosinho no SubWay da Gleba Palhano faz parte de uma máquina de lavagem de dinheiro de propina por um fiscal do Ministério da Agricultura em Londrina.

E aqueles coreanos que você imaginava super-rígidos na moral e nos bons costumes – os donos da marca da tevê da sua sala?

Pois então: a Samsumg também nos fraudou em um esquema com navios-sonda na Petrobrás – no mesmo pacote, estão Eduardo Cunha e os doleiros dos crimes do mercado. Tinha holandês fazendo esquema com a Petrobrás em dragagens de portos também.

Daí conhecemos Joesley da JBS/J&F, que flana leve com sua narrativa de quem pagou quase 2 mil políticos como se contasse uma anedota no boteco. “Aí eu peguei e paguei meio milhão para ele por semana …!” (ahahahahahahahah)

E o que Joesley e seu conglomerado te mostram é a corrupção além da simples carne com SIF fraudado. Vai da margarina (iec!), aos drumetes de frango venenosos da Big Frango estalando no seu fogo. Está naquele queijinho Faixa Azul que você rala. E no macarrão também.

Está no detergente Minuano e na sandália Havaiana que, com o tempo, agora solta as tiras.

Tem esquema até no seu Neutrox, se você é disso. Tem lá na sua roupa Timberland também.

Mas você acende a esperança e diz: “Nos países desenvolvidos é diferente – o Brasil tem que chegar lá!”

Não, não é. Nunca foi. Nunca será.

Cena do filme TERRA: Netflix e Youtube tem

Americanos, franceses, italianos, gregos – até os alemães – praticamente todos os povos, de maneira geral, tornam-se presas das marcas que mais adoramos comer, vestir, dirigir, nos dar confortos.

Uns mais, outros menos. Todos sempre.

A nossa relação com as grandes marcas e empresas é tão conecta que quase podemos afirmar que elas fazem isso … por nós!

Para garantir o que queremos na escala humana que desejamos, os mundos políticos, estatais e econômicos forjaram incríveis alianças contra nós mesmos, comuns.

Convença-me que tem solução o sistema em que o amigo da JBS entra com nome falso pela garagem da casa do presidente. Ou um mundo em que um ex-presidente tem seu sítio reformado pela empreiteira que representa – antes, durante e depois de governar a República.

O poder e o dinheiro sentam-se com os pés na mesa na sala de qualquer senador ou deputado – e o tem como sócio. O BNDES, por exemplo, enfiou R$ 10 bi no grupo de Joesley e tornou-se dono de quase 30% do negócio. Fora empréstimos na CEF e BB, cujo total pode bater R$ 50 bilhões em facilidades para a JBS/J&F.

Tudo para que produtos e confortos estejam ao alcance das nossas mãos, na prateleira do mercado, a preços “módicos” em uma produção mais industrial o possível, para o máximo de humanos possível.

E se é a gente quem alimenta essa roda, a história tem, portanto, com cada um.

É com nossos dinheiros, vontades e desejos que essa intensa e imensa máquina gira e permanece em moto-perpétuo. Um ultracapitalismo estatal que nos governa junto com os governos…

Dá para boicotar a JBS no churrasco de fim-de-semana? Fazemos cócegas na Coca-Cola toda vez que decido não comprar uma latinha (só por hoje, só mais um dia)?

Vale aplicar tempo pensando nisso?

Conseguimos comer e sobreviver fora da mesa posta para nos jantar?
Há provas que sim.

Uma parte dessa prova está nas coisas locais que podemos erguer.

Semana passada, o Tp1 esteve no sítio Rampazzo, em São Luís, em uma visita organizada para moradores de Londrina.

Um casal de amigos – Telma e Luís –presenteou-me com duas dicas de filmes que captam o exato momento em que estamos.

Assisti e passo à frente.  Sim, tem na Netflix e no youtube.

Os dois são documentários franceses. O primeiro é TERRA – O filme.

Nesta produção, micróbios, fungos e bactérias contam a origem da humanidade que nos tornamos.

TERRA nos leva da floresta às cidades. Passeia pelas mais formidáveis e destrutivas coisas criadas pela humanidade para a gente mesmo.

Da evolução biológica de nós bichos à tecnologia, o documentário avalia o caminho percorrido por um olhar conjunto do nosso resultado produzido sobre o globo terrestre.

Sim, você vai se sentir dentro disso.

Ver de cima as criações gigantescas de gado nos EUA (ou no Brasil) não é, exatamente, a visão que gostaríamos do nosso bife mal passado no prato.

E a assustadora cidade russa erguida só para a exploração dos recursos minerais de uma área no meio do nada no gelo… Para termos um Iphone.

Dá para entender com perfeição em qual ponto chegamos dos processos que criamos como humanidade.

E aí tem um outro documentário que mostra a “virada”, aponta a perspectiva.

E foi impossível não encarar o Tp1 como parte dela.

O documentário, também francês, é DEMAIN – Le Film.

Traz o exato “outro lado” de toda a movimentação destrutiva que geralmente observamos sempre muito mais.

Os franceses conduzem com muita sensibilidade o registro das práticas ao redor do mundo que se contrapõem com dignidade – talvez não em intensidade e ainda na mesma escala – às coisas que nos dóem e nos deterioram como seres humanos.

Uma grande cidade americana onde o lixo é altamente controlado e não se torna problema.

A experiência de energia gerada de forma inteligente e não-destrutiva em países nórdicos.

A empolgação de finlandeses com suas visões e práticas de educação inimaginavelmente incríveis. As novas formas de se alimentar em Detroit.

As dezenas de moedas locais complementares na Inglaterra – totalmente paralelas às do país…

Aliás, essa questão das moedas locais é o que impede totalmente os dinheiros circulantes em um determinado espaço de “irem embora” dele – posto que só tem validade ali.

No Brasil, inclusive, temos centenas de moedas complementares – e o Banco Central dá uma espécie de assessoria para quem quiser criá-las no território.

São tantos os caminhos viáveis de nos desenvolvermos em nível local ou micro …. e todo dia me pergunto até quando vamos prescindir de um sistema centralizado em Brasília para nos deixar sermos responsáveis pelas nossas próprias vidas e felicidades.

Então, assista ao TERRA. E veja DEMAIN. Lembre-se de que os responsáveis por injetar esperança na vida da gente só podem ser nós mesmos, com nossas atitudes, ações e construções.

E o Tp1 faz parte disso. Vem também se você quer.

Somos Londrina. Somos Todos por Um

DÁ PARA PERDOAR LEANDRO PELO QUE ELE FEZ E FOI?

por Marcelo Frazão

LONDRINA – Essa é a história de Leanderson José de Almeida, 33, e o dia em que ele bateu à porta de casa pedindo para arrancar o mato que cresce no limbo entre o asfalto e o meio-fio da esquina onde moro, na zona oeste de Londrina.

Leia e diga se faz algum sentido para você.

Quando a gente mora em apartamento ou condomínio fechado, existe um isolamento da rua imposto pela elementaridade dos muros, das portarias e dos controles, dos interfones e dos andares dos edifícios.

Só que quem mora em bairro comum em Londrina, aberto, também se isola por escolha.

É relativamente simples não interagir. Fácil deixar de atender à porta, às palmas. Se não espera ninguém em horário e data combinados, basta “não ouvir” a campainha.

Via meus vizinhos fazendo isso. Confessei ter também feito muitas vezes. Ainda mais com a crise, os pleitos na porta de casa são uma constante romaria. Vem a desculpa: “é mpossível” dar o que todos precisam. E por ser constrangedor atender a um pedido com um envergonhado não, melhor se esconder, fingir… bem mais fácil.

Dependendo da “configuração” da vida de cada um, creio que mora em nós moradores um certo afastamento da rua.

Às vezes por questão de segurança. Às vezes por pura preguiça, omissão e falta de vontade mesmo.

Intramuros, ou dentro dos andares seguros – ou mesmo nas nossas casas em bairros abertos – nos distanciamos.

Sempre dá para sacar uma desculpa e não ir ao portão atender pessoas que, na maioria das vezes, só pedem ajuda.

Dinheiro, comida, roupa, doações. Alguma coisa. Qualquer coisa.

Outra parte vende algo: vassouras, panos de prato, frutas, pamonhas (silenciosas, sem carro de som).

E ainda ofertam-se vários pequenos consertos e serviços: cortar o jardim, arrumar a calçada, podar a árvore, consertar um muro caindo… qualquer pequena observação sobre o necessário a ser feito no imóvel pode ser a senha para tocar a campainha, bater palmas e oferecer um serviço ao morador da casa.

Todos como disse, devidamente ignorado.

“- Mas Marcelo, não dá para saber se o mel do vendedor é legítimo. Nem se o pedido de dinheiro para remédio ou exame é só um golpe repetidamente encenado. E se for alguém monitorando algo?

“- E se… e se…”

Bom, certamente não há como avaliar previamente se todo mundo que chama em palmas e que toca a campainha realmente merece ser atendido.

E, na rotina de violência como regra de funcionamento da cidade, abrir portas, atender, pode tornar-se, sobretudo, um risco.

No entanto, à revelia da realidade, faria diferente sempre que desse – e mostraria aqui no Tp1 o que acontece quando a gente se abre para uma cidade como Londrina.

Fato é que acabei conhecendo gentes como o sêo João Barros, dos últimos consertadores de guarda-chuvas de Londrina (já escrevi antes sobre isso). Falei com o pessoal de uma igreja – eles foram tão rápidos que até fiquei surpreso porque me sentia preparado para a conversa. Conheci um ex-cortador de cana que catava lixo na rua em Londrina – e tocou a minha porta pedindo permissão para ficar com algo (uma calha de alumínio) que havia deixado encostado rente no muro, para quem quisesse levar.

Três dias atrás ouvi as palmas e fui ver quem era. Era o Leanderson. “Mas pode me chamar de Leandro” – saberia mais tarde.

Queria tirar o mato que insiste entre o asfalto esfarelento e o meio-fio da calçada. Se você observar, essa parte – entre meio-fio e início do asfalto – é uma borda de rua que parece não pertencer nem ao morador, nem à municipalidade.

Ali, dependendo da (má) conservação da rua, pode virar uma floresta de mato, flores e lixo acumulado. Às vezes até fico feliz que essa vegetação que antecede a entrada do bueiro retém lixo que as pessoas jogam. É interessante como um problema pode solucionar parte de outro problema. Só que não pode permanecer… baita serviço chato de fazer.

Neste dia, após ouvir o pedido para o serviço que era meu, pareceu razoável pagar.

“- Meu, mas quem é você? Onde você mora? Por que arranca mato de porta em porta, desse jeito?

“- Ô amigo, se começar a contar a minha vida …”, disse, na lata.

Antes, me pediu uma faquinha para melhorar o tira-mato.

Parte do limbo onde nasce o mato – já sem o mato – entre o asfalto e a emenda do meio-fio

Saquei o celular e gravei esse depoimento de um morador de Londrina para o Tp1.

Me lembrei dos vários amigos e conhecidos e das notícias incessantes com relatos – que vi e ouvi, nos últimos anos, de vítimas violentadas, agredidas, roubadas, cujas casas foram aterrorizadas em invasões por gente como ele.

Na verdade, por ele.

Leandro era um criminoso violento, assaltante dos piores.

“- Como era isso. Me fala.”

“- Saía a pé ou de moto, armado, (com mais um) e ia na lôca. Ficava zanzando pelos bairros e quando alguém tava entrando ou saindo, de carro, de a pé, tentava cair para dentro junto”.

“- Era violento, nervoso, violento demais. Agredia, xingava, não dava chance para a vítima”.

33 anos, 12 anos de cadeia em cadeia. Passou pela Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), Casa de Custódia, Penitenciária Central do Estado (PCE), de Curitiba.

Esteve condenado por três assaltos e dois furtos. Fugiu, levou tiro, quase morreu. Sabe-se lá como, tem corpo “fechado”, com marcas de facada e bala.

Faz dois anos e pouco está livre. Imagine o que 12 anos de cana não fazem com qualquer sujeito. No caso dele, Leandro fez questão de demonstrar que evoluiu.

Como ler a alma de alguém? Tudo o que pude fazer foi ouvir até me certificar de que poderia acreditar. E eu acreditei no Leandro. Para mim, a feição no rosto dele, a energia dele não era mais a de um cara cruel como ele contava.

“Sinto vergonha do que fiz, do que já fui”.

E, a poucos minutos do fim da entrevista, o rapaz fez um gesto surpreendente para me demonstrar seu esforço.

Um esforço que quem é abordado por ele certamente tem dificuldade de enxergar em um cara todo tatuado, vestido como dá, sujo, com uma história cruel, a perambular à cata de pequenos serviços – sem nem mal saber direito se expressar.

O gesto simbólico tenta materializar – para mim que o questionava – uma nova pessoa que todo dia ele constrói à margem de uma cidade como a nossa. É aqui em Londrina.

Leanderson José de Almeida, 33 – “mas pode me chamar de Leandro”

Fora o pagamento pelo serviço, não pediu mais nada para mim. Só revelou querer algo que antes já o fizera sentir mais vivo e se tornara parte da própria autodescoberta.

Algo muito simples e que o fez renascer como gente. Leandro gostaria de voltar a ter um pirógrafo e uns poucos materiais para desenhar em madeira e vender os quadros que aprendeu a criar no “tratamento” durante a cadeia.

Diante dessa história, não consegui ter outra decisão que não a de viabilizar um pirógrafo de qualquer maneira.

Gravei o depoimento dele ao mesmo tempo em que conhecia a história. Sem entrevistá-lo detalhadamente antes, de forma que a minha surpresa e descoberta seja a sua também que assista. Queria tornar possível QUASE a mesma percepção que tive ao ouvir diretamente a história.

Essa é a interação do Leandro comigo captada pela câmera.

Dê play. Após testemunhar o depoimento dele, quero saber se você pode estar nessa comigo.

Me envie uma mensagem dizendo se, um passo à frente, pode ajudar Leandro a não se tornar parte dos 30% de criminosos que voltam a cair em cana.

Nunca vi nada que ele tenha criado. Só sei que o primeiro quadro produzido com o equipamento vai ser sorteado entre os TpÚnicos que ajudaram.

Calculo que doações únicas entre R$ 15 e R$ 30 sejam suficientes para o pirógrafo e materiais que ele necessite – além de um pouco de dinheiro para reforçar o bico de arrancar mato até que venda seus primeiros quadros.

Mande uma mensagem em tp1@tp1.com.br. Se acreditar que vale a pena atender às palmas e campainha, em breve respondo com os detalhes de como fazer a contribuição.

Somos Londrina. Somos Todos por Um.

https://youtu.be/ox_Nn0_QZIU

 

A CARTA DE LONDRINA AO STF COM UM PEDIDO DE JUSTIÇA

por Marcelo Frazão

Londrina – Não sei se você conhece alguém que já tenha feito isso, mas queria te apresentar a Laila Menechino.

A Laila é a londrinense que, um ano atrás, mandou uma carta à mão suplicando para que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Levandowski liberasse o julgamento do acusado de matar a mãe dela, a professora Estela Pacheco.

O crime foi em 14 de outubro de 2000.

Neste dia, não conhecia a Laila ainda. Na época, saía da UEL ouvindo um radinho de pilha ligado na CBN. Estava dentro do ônibus quando fiquei sabendo do crime.

Aluno de jornalismo curioso, desci na Avenida Higienópolis e fui até a rua Paranaguá, ao Edifício Diplomata. Ali, uma pequena multidão ainda se aglomerava na frente do prédio onde um corpo acabara de ser recolhido pelo Instituto Médico Legal (IML).

Era a mãe da Laila. Alguns anos depois, essa figura da foto se tornaria uma das principais e queridas amizades que tenho aqui em Londrina.

Laila Menechino com a foto da mãe: um crime contra todos nós

O que ocorreu no apartamento no 12º andar para que o pecuarista Mauro Janene arremessasse a professora Estela da janela?

Provavelmente tentou, de forma sinistra, simular um suicídio depois de tê-la matado dentro do apartamento.

A queda mascarou a causa da morte, que deu como inconclusiva.

Não foi descartado que Estela tenha sido asfixiada mecanicamente. Na época, um dos jornais da cidade registrou a entrevista na qual o perito apontava a marca de uma agressão no rosto da mãe da Laila.

Os Janene, como sempre, contrataram em Londrina o escritório de advocacia com maior perícia em protelar casos. Defendem que apenas trabalham com o exercício justo das leis existentes.

A advogada de Londrina defensora do acusado é a mesma entrevistada no Fantástico que contou como lutou para devolver o filho a uma mãe que o havia perdido em um esquema – envolvendo um juiz de Londrina – para furar a fila de adoções de crianças na cidade. Ela atua voluntariamente no caso da mãe.

Triste coincidência.

Na época da morte de Estela, lendo as notícias dos jornais disponíveis no site da família sobre o episódio  – www.justicaparaestela.com.br – fica bastante evidente que os delegados e o juiz (que morreu) agiram de maneira bastante estranha.

Até que o réu desaparecesse para nunca mais ser visto, graças ao que as autoridades deixaram de fazer para que fosse preso. Na época, ficou cinco dias preso. Solto, desapareceu.

Com dúzias de chincanas jurídicas, nos últimos 17 anos o julgamento do acusado foi adiado por seis vezes.

A última, em dezembro de 2014.

Quando este Juri foi cancelado, tudo paralisou-se para esperar a decisão de um recurso da defesa no Supremo Tribunal Federal.

Na Côrte distante, dominada pelos mensalões e Lava-Jato da vida, parecia uma impossibilidade uma decisão rápida sobre o habeas-corpus que bloqueara o Tribunal do Juri em Londrina.

A punição para o assassinato prescreve em 2022. A família, no entanto, nunca admitiu isso.

Jornalista e advogada, a Laila decidiu escrever uma carta à mão em que suplicava ao ministro Levandowski a análise do recurso capaz de destravar o processo criminal.

Foi no dia 8 de março de 2016. Mas foi ontem.

Ninguém exatamente sabe se o ministro leu a carta e como isso impactou a Côrte na capital federal.

Mas o fato é que uma semana depois o recurso foi negado e o julgamento remarcado.

Agora, será na semana que vem, 16 de março, no Tribunal do Juri de Londrina.

Com o passar dos anos e com tanta demora, a Laila vez ou outra titubeia. Aos amigos, pergunta, incomodada, se a nossa cidade quer mesmo ver esse crime resolvido.

Tudo joga tão contra que ela parece perguntar à sociedade se a luta da família não nos incomoda demais.

Natural que depois de tanto tempo esmurrando o poder econômico, político e judiciário a família seja empurrada a se questionar o quanto tudo isso vale. “Não vai trazer minha mãe de volta”, costuma pensar a Laila, em tom de revolta.

Agora com o filho Caetano no colo, a Laila precisa da ajuda de Londrina para continuar tendo energia.

Laila, a sua luta é nossa.

Não apenas porque exigir Justiça para a morte da própria mãe é digno e tão necessário.  Sobretudo no momento em que vivemos.

Mas também por Estela ser uma mulher como tantas outras que podem, neste instante, estar no meio de um relacionamento abusivo – sem que os amigos ou quem esteja em volta se pronuncie.

O réu Mauro Janene precisa ser julgado – e condenado – pois há indícios e provas suficientes. O crime contra Estela é um crime contra a Laila e a família dela, contra mim, contra você, contra Londrina e contra todas as mulheres que merecem dignidade, respeito e valor no lugar de dor e humilhação.

Na sequência , a carta manuscrita corajosa que Laila enviou ao ministro do STF – e deveria ser assinada por todos nós, todos os dias.

Uma carta para ser lida por todos os integrantes do poder judiciário, polícias e promotores brasileiros que não se importam com o combate à impunidade. E uma carta que faz jus a todos aqueles que se importam.

A carta de uma londrinense ao ministro do STF

 * Em memória de Cleonice Fátima Rosa, assassinada por Vanda Pepiliasco; de Fernanda Estruzani, morta por Marcos Panissa, da estudante Amanda Rossi (sem mandante definido), e tantas outras mulheres e homens assassinados e jamais sepultados em razão da ineficiência da nossa Justiça.

Assine a petição Justiça para Estela

http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR80154

Visite o site com todas as informações do caso: www.justicaparaestela.com.br .

Estamos com vocês, Laila e Estela!

Somos Londrina. Somos Todos por Um

VAI, MÁRIO!

por Marcelo Frazão

Londrina – Geralmente, chegar aos 30 anos (há quanto você já passou dessa?) é uma data que nos impele à crise.

Bastante comum sentirmos um certo medo ao nos dar de frente com o fato de que… envelhecemos!

Aos 30, ficamos um pouco mais abismados com o tempo que já passou e nem percebemos. Talvez alguns trintões ou trintonas sejam acometidos por um certo flashback misturado com a linha do tempo da própria vida.

Bater nos 30 é estranho. Parece um alarme que faz com que a gente se dê conta – se isso ainda não aconteceu antes – da vida que temos e da que teremos dali em diante.

Olha só essa história.

Conheci o Mário Luiz Trevellin Jr. no ano passado, em um evento do Todos por Um.

Esse aí da foto!

Mário, ano passado, ao completar o desafio de Marialva. Foto: facebook

O Tp1 é uma caminhada interessante. Como morador de Londrina, quem entra ganha uma experiência acumulada gigantesca.

E isso acontece justamente porque o Tp1 é sobre nos sentirmos parte de Londrina e sobre entender poder que a gente tem como morador da nossa cidade. Envolve vários aspectos.

Pois eis que o Mário, ao fazer 30 anos neste 27/2, decidiu-se por um desafio. Nada de crise de idade. Aliás, nem um pingo de tempo para isso.

Anteriormente, já havia conhecido a história de um senhor aqui de Londrina, o seu Wilson, 63 anos, que troca quilômetros de corrida e maratonas por doações para entidades da nossa cidade.

Agora, o Mário, aos 30, quer fazer isso também. Só que vai de bike.

E como o trabalho de bike é mais leve do que o de corrida a pé, creio que podemos fazer o Mário pedalar beeeem longe.

Por que não mandá-lo a Maringá, talvez? É ele quem tá pedindo!

Leia o recado que o Mário me mandou:

Marcelo, viu o meu desafio dos 30? Dia 27/02 é meu aniversário. Como é especial, de 30 anos, peço para cada amigo uma doação de 1kg ou mais de alimentos não perecíveis. Farei a doação a alguma instituição da cidade. Como recompensa e gratidão pelos presentes recebidos irei pedalar 1km por KILO! Quem tá comigo? Quem vai na sofrência? Tá lançado o desafio e quero pedalar muito !!!

Quem não pedala também participa aumentando a kilometragem!!  Não precisa pedalar! Quero apenas os alimentos para doação como incentivo. Quem pedala e quiser acompanhar será bem vindo!

Conto com você !!!

Pois bem, Mário. Primeiro de tudo, feliz aniversário!

Segundo, saiba que este tipo de desafio coloca quem fica sabendo em uma situação bastante confortável. Eu mesmo jamais conseguiria acompanhar o Mário, ciclista, numa pedalada dessas.

Então, como não posso pedalar, não tem como deixar de doar. Vários amigos dele já estão juntos.

O Ricardo doou 10 kilos. Colocou 10 km na conta.

O amigo Ricardo, dando motivo para o Mário pedalar

Outra amiga do Mário, Fernanda, aumentando os quilômetros do desafio. Foto: facebook

Perguntei ao Mário se havia enlouquecido. Será que não seria “arriscado” demais ser inundado de doações e ter que cumprir quase que uma prova de Iron Men?

A resposta foi firme.

“Marcelo, quanto mais vier, melhor! Divido em dias se necessário. Importante é fazer a diferença. Se der 200 kg, faço Londrina x Maringá”

O aniversariante me informou, ainda, que as doações vão para o Centro de Convivência Pestalozzi, que atende 115 crianças de 6 a 12 anos.

Então, a ideia é que cada leitor desse post doe PELO MENOS UM QUILO de alimentos não perecíveis para ajudarmos o Mário a ir bem longe!

Como faz?

Para fazer o Mário pedalar, a Barbearia Gerardt, bem no centro de Londrina, é ponto de coleta e recebe as doações. Para não errar horário, nem perder a viagem, ligue lá antes: 3338-8890 ou 43 9.9145-6045. Fica ali na Rua Pará, 931, esquina com a Avenida São Paulo. Abre normal a partir desta quarta-feira, 1 de março.

A campanha do Mário vai durar duas semanas. Aqui pelo Tp1, o pedido é para que você que se você acompanha a comunidade, caso possa e caso queira, tente doar até sexta-feira (3) ou sábado (4) para a gente fazer uma enxurrada de colaborações tpúnicas!

Clique na página dele se quiser falar diretamente.
https://www.facebook.com/trevelinmario?fref=ts

Meus três quilos já estão aqui!

Antes de deixar na Barbearia, escreve Tp1 na embalagem do que você doar ou avisa para a gente de alguma maneira para sabermos o quanto conseguimos dar de suporte para a ideia do Mário!

Se cada um que ler esse texto responder…

Te prepara, Mário!

Somos Londrina. Somos Todos por Um

À EMPRESA DE LIXO DE LONDRINA: APENAS CONTRATEM O RODRIGO DOS SANTOS !

Se você acha que a profissão de lixeiro em Londrina existe como sinônimo de falta de opção, precisa ouvir o depoimento do Rodrigo dos Santos

por Marcelo Frazão

Londrina – A vida dá voltas e te cutuca quando você menos espera.

Mas é aquilo também: quando você age, algo reage em resposta. Se fica parado, a cidade em volta também fica. Em qualquer lugar é assim.

São 16h, o dia está quente, mas até agradável para um janeiro. Da porta da empresa privada que coleta o lixo de Londrina, na zona sul da cidade, avisto três homens conversando.

Estão embaixo de uma árvore, lado de fora da empresa.

Suponho que são trabalhadores dali, o que me interessa. Motoristas e coletores sempre têm toneladas de histórias. Sabem demais do sistema porque, quando as licitações se encerram e trocam-se as empresas de coleta, todos os funcionários são imediatamente absorvidos pela próxima. Meio que automático.

Me aproximo e começo a conversar.

Estou diante do coletor Jair e do motorista Edson – ambos com larga experiência na coleta do lixo das casas de quem mora em Londrina e Ibiporã.

Imagine que quando se é coletor ou motorista de um diabo de um caminhão de lixo da coleta pública na cidade, uma certeza há: com tantos anos de profissão, muito provável que você já tenha passado na porta da casa de todas as pessoas.

Uns 250 mil imóveis, em mais de cinco mil ruas.

Dentro de casa, se você gera lixo em qualquer canto de Londrina, é visitado por um caminhão com um motorista e três coletores.

E, veja só: mesmo que você nunca pague IPTU na vida e seja um caloteiro da Prefeitura, a coleta de lixo é, sem dúvida,  um dos poucos serviços que não te será negado por isso. Nenhum caminhão NUNCA deixará o seu lixo na porta, para trás, porque você não pagou o carnê do IPTU de Londrina.

Pois bem. Acompanhe.

Converso com os três, tentando “arrancar” algum “causo do lixo”. Volto-me para o único que não estava de uniforme.

Sujeito forte – uns dois de mim – negro, vestido de camisa pólo, calça social e sapatos. Uma tentativa de esporte-fino, talvez. Mas, na porta da empresa de lixo?

O cara olhava fixo os caminhões de lixo estacionados lá atrás, no pátio da empresa.

– E você? Já trabalha aqui? – eu quis saber.

– Não, não… Quero trabalhar. Vim aqui pedir para voltar a ser lixeiro.

– Como assim, você já foi?

– Trabalhei com lixo em 2012 e 2013.  Agora, mais ultimamente, eu estava em um supermercado. Só que não quis mais. Aquilo lá não é para mim não.

– Mas como uma empresa de lixo é melhor que as bancas de um hortifruti de mercado?

– É que prefiro essa liberdade aqui do caminhão do lixo.

E voltou a mirar os caminhões.

Fiquei surpreendido porque, na minha ignorância, ninguém exatamente “sonha” em ser lixeiro.

Achei que era última opção, ou falta delas. Engano enorme. Entenderia logo mais que ele nem era uma exceção.

 – Vou te falar uma coisa: faz uma semana que eu sonho que tÔ na rua coletando lixo em cima do caminhão, diz.

Antes que a conversa engrenasse com mais revelações que destruíam a marretas o meu imaginário de como é a vida de alguém que trabalha com lixo, o rapaz quebra a linha de raciocínio.

– Conheço você.

– De onde, como assim?

– Quatro anos atrás você foi lá no assentamento em que eu estava, no Assentamento Nossa Senhora da Paz. Chorou quando viu as crianças junto com a dona Neusa.

Como não entendi nada, tentei puxar na memória. Tristeza, pobreza, Neusa, crianças…

Nada parecia fazer muito sentido.

– Onde você mora?

– Te conheci lá na invasão do assentamento Nossa Senhora da Paz. Você me entrevistou quando fiz meu barraco. Chorou por conta da situação das crianças.

Na vida de jornalista, após andar por Londrina praticamente inteira – do que há de pior ao de melhor – você não fica se lamentando com as coisas que testemunhou e cobriu a todo instante.

Vida segue.

Mas encontrar o Rodrigo faltando dois dias para fazer 3 ANOS daquele dia na invasão em que o entrevistei ficou para mim como algo espantoso.

Foi em 29 de janeiro de 2014 que conheci o então recém ex-lixeiro Mateus Rodrigo dos Santos.

O coletor Jair (esq) e o aspirante a coletor Rodrigo (fechando a cara para a foto) na porta da empresa de lixo

1º de fevereiro de 2017 e cá estamos novamente.

Na época, trabalhava no finado Jornal de Londrina.

Naquela semana de janeiro de 2014, exatos 234 barracos haviam surgido em dois ou três dias, lá na ponta de Londrina, praticamente onde a cidade faz a curva. Em um gigantesco terreno particular.

Não sei se você conhecia o assentamento Nossa Senhora da Paz (não confunda com a favela da Bratac, que também se chama Jardim N.S. da Paz) ou o Jardim São Jorge – um em frente ao outro , zona norte de Londrina.

O São Jorge também foi uma antiga invasão da década de 1990. Hoje é um bairro comum – e cheio de abandonos mil.

São os “últimos” aglomerados de gente na zona norte de Londrina.  Retratos reveladores do isolamento social da imensa periferia da cidade.

“Perifa” no total sentido do termo.

A lembrança daquele dia me fez retornar à extrema impotência diante de um terreno com mais de 200 famílias jogadas à própria sorte.

Ali, o máximo que dava para esperar era uma reintegração de posse obtida pelo dono.

Anos antes, ver aquele terreno particular novamente vazio já significou uma “vitória” de Londrina. Um grande programa da Prefeitura de Londrina já havia anteriormente removido centenas de famílias que estavam ali para casas populares e “zerado” a conta. Mas outras, agora, voltariam.

Aquele dia estava especialmente quente. Ainda mais lá: a invasão era em terreno descampado, que esperava a cidade chegar mais perto para ser loteado e urbanizado.

Me veio, de novo, a sensação da calça e da camisa colando no corpo no calor. Aquele terrão vermelho, em meio a barracos de compensado e lona plástica com gente suando e passando apuros dentro.

Desenhe a cena do que acontecia ali: além de adultos e velhos, muitas crianças sem qualquer condição. Sem sombra, sem água, sem vida.

Avistei uma família e fui conversando enquanto uma fumaça enorme envolvia um bebê dormindo dentro do barraco. O calor fora era uns 40º.

Dentro dos cubículos de terreno separados por paus e riscos no chão – havia até casas de papelão. Dentro, uns 10º graus de suor com certeza.

Molecada suja, descalça, desnutrida, destruída junto com os pais. Conversei com uma das crianças. Me arrependi de ser humano.

Cólera admitir aquilo na sua cidade e você ter que engolir seco. Coloquei a culpa na gente, no governo que saía e no que entrava. Quando se está diante de algo assim, a pergunta elementar é: “onde erramos em uma cidade tão boa como a nossa?”

Ter ido lá me jogou para baixo de forma tão violenta que de volta para a redação não consegui parar de chorar. Foda. Naquele dia apenas fui para casa.

Nem escrevi nada porque já era tarde e o jornal já estava quase fechado quando consegui voltar.

Dois dias depois, voltei. E umas três vezes outras.

Quando escrevi a matéria – tinha que ser curto – fiquei extremamente pesaroso. Matéria de jornal nenhuma iria corrigir, melhorar ou ajudar aquilo.

Fiquei preocupado e tenso com o que tinha presenciado – pela enésima vez .

Na hora de escrever, errei o nome do presidente da Cohab, que me deu uma resposta fria sobre a questão.

Me senti meio tolo com a minha indignação diante daquela  “certeza” governamental.

Após errar o nome do presidente da Cohab no jornal, dia seguinte ele ligou. Me espinafrou. E disse que não falou aquilo que estava na entrevista.

Pelo erro no nome, senti vergonha e pedi desculpa a ele. E engoli todo o resto junto. Tinha errado e não havia uma gravação da conversa. Impossível contestar.

O JL publicou no dia seguinte, página 3: “ERRAMOS: Na reportagem Assentamento “renasce” com 234 barracos na zona norte, publicada ontem, o nome correto do presidente da Cohab de Londrina é José Roberto Hoffman”.

(Grande problema, pensei comigo …)

Nos meus arquivos, encontrei o texto da reportagem que escrevi no finado jornal.

Sem foto.

Nela, estava o ex-lixeiro Rodrigo que agora encontrava, três anos depois, na portas da empresa de lixo pedindo um emprego em um dos caminhões.

 Olha a íntegra.

Imagino que saiu no dia 30 ou 31 de janeiro de 2014.

Assentamento “renasce” com 234 barracos na zona norte

Marcelo Frazão

O extremo norte de Londrina volta a exibir a marca da pobreza com 234 barracos de plástico, madeira e materiais improvisados onde foi o extinto Assentamento Nossa Senhora Aparecida, entre 2000 e 2012.

É a segunda ocupação de terras do ano em Londrina. Outros 160 barracos também estão erguidos no Conjunto Aquiles Stenghell (zona norte), onde permanecem.

Até 2012, dezenas de famílias moravam no Assentamento, até a remoção por projetos de habitação popular da Prefeitura. Agora, tudo como antes: diariamente, mais casebres nascem com as primeiras fossas cavadas em lotes demarcados pelos invasores.

São 16h da tarde e o sol a pino faz do calor uma sensação infernal. A água usada pelas famílias corre em uma mangueira que percorre o terreno sob o chão – passando perto das fossas – e é compartilhada em centenas de “gatos” e emendas coletivas. “Água é assim, ó”, diz Tonico, 33, sem querer dar o sobrenome, enquanto apanha um pouco com a mão para se refrescar na mesma caixa de água usada para beber. Sem sanitário, banheiro é qualquer lugar.

Deitados no chão, no meio da fumaça das queimadas para abrir o terreno, Nataly (1 ano e 4 meses) e Jaimir (4 meses) dormem profundamente e não fazem ideia do caos em volta. São netos de Neusa Ferreia, 38, cujo marido faleceu de câncer deixando com ela os quatro filhos – três deles dormindo no barraco. “O mais novo de sete anos nem tem como ficar aqui”, diz, envergonhada da condição que considera “meio sem saída”. “Não consigo mais pagar aluguel. Estou desempregada e queria um lugar para a família. Deveria ser um direito mínimo”, lamenta. Ao ouvir, a neta não se contém: “Queria estar na rua, brincando, correndo como era antes”, apela Carolaine Vitória, 7, olhos irritados da fumaça, sorriso contido pela complicada situação.

Até dezembro passado, Rodrigo dos Santos, 21, era lixeiro da coleta municipal da Prefeitura. Com a mudança dos contratos, sobrou-lhe o olho da rua. “Morar em seis dentro de uma casa pequena não dá certo. Não tenho como alugar, nem pensar em comprar. Como um estádio de milhões só para jogar bola na Copa sai rápido? Mas casa para quem precisa, não?”, indigna-se o morador do casebre demarcado no número 61 pela Cohab. “Alguém tem que nos falar alguma coisa. Podemos ficar ou tem outro lugar para a gente?”

“Não vamos tomar providência nenhuma. O terreno é particular e, ao que sabemos, os donos vão pedir a reintegração de posse”, diz >>>>Carlos Hoffmann (sic), presidente da Cohab – onde a fila de inscritos apenas em situação de risco social passa de 15 mil pretendentes a uma moradia. Hoffmann não quis revelar o nome do dono das terras: limitou-se a informar que o local pertence a “uma família tradicional de Londrina”. “Fizemos um levantamento e 95% das pessoas moram no bairro em frente. Só 2% dormem lá à noite. Quem invade não pode ter privilégio porque isso traria problemas com invasões pela cidade inteira”.

Serviço:

Roupas, alimentos, materiais de higiene e oferta de emprego: Neusa (8401-6265)

Nos dias seguintes à reportagem muita gente ajudou a Neusa e me enviou informações sobre isso.

Fiquei chateado de, no máximo, como jornalista, colocar o nome de uma pessoa na reportagem e um só número de telefone. E, ainda, tratávamos isso como “Serviço”.

Tosco.

E agora, na minha frente, estava o Rodrigo, um dos figuras que, sem nada na vida, tentava a sorte em um terreno de chão duro naquele dia quente de verão, lá no fim de Londrina.

Enquanto conversava com ele, obriguei-o a gravar esse vídeo de qualquer jeito. Ele não queria. Estava com medo do que o pessoal da empresa ia achar.

Aceitou.

E entreguei este depoimento para a empresa ver o quanto o cara merece mesmo essa vaga.

Assista:

Ei, Kurica! Apenas contrate o Rodrigo dos Santos!

Somos Londrina. Somos Todos por Um.