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Só vai dar certo se a gente fizer junto

Só vai dar certo se a gente fizer junto

Por Christina Mattos –

Qual o melhor investimento para a sua vida pessoal, sua carreira, sua empresa, sua cidade?

– Aprender a fazer junto.

Lala Deheinzelin responde convicta, baseada no conhecimento acumulado em 23 anos como Futurista.

– Ser Futurista é apertar a tecla “refresh”, tendo atitudes de escolha de vida pessoal, de vida profissional e de organização empresarial que sejam condizentes com o futuro.

A melhor escolha, segundo Lala, é sintonizar a vida com as novas lógicas da Economia Criativa (e Colaborativa).

O primeiro-ministro da Austrália Paul Keating foi o primeiro a usar o termo Economia Criativa num documento oficial, publicado em 1994, chamado Creative Nation (nação criativa), que apresentava novas políticas públicas de incentivo a negócios baseados na produção criativa.

No Reino Unido, em 1997, o primeiro-ministro Tony Blair criou uma força-tarefa no governo dedicada às indústrias criativas para reagir à crise  global. Sendo que, nos anos 80, Margaret Thatcher já havia reconhecido a importância da tecnologia e da produção cultural  para o crescimento da economia.

No Brasil, Lala é uma das pioneiras no desenvolvimento de políticas e processos voltados à Economia Criativa e Colaborativa. Assessorando empresas, governos e até a ONU, ela se tornou uma referência no assunto. Desenvolveu uma metodologia para facilitar a transição e a prototipação de negócios e produtos, a Fluxonomia 4D, que vem sendo aplicada aqui e no exterior.

Para Lala, tudo que gera valor a partir de recursos intangíveis está dentro da Economia Criativa.

– Na economia tradicional produzimos riquezas a partir de recursos tangíveis como terra, ouro e petróleo. Na Economia Criativa, a riqueza é gerada a partir de recursos intangíveis como cultura, criatividade, reconhecimento e experiências. Na verdade, a Economia Criativa sempre existiu. O que é novo é a gente perceber que essa é a prioridade. Nosso grande desafio é a sustentabilidade. O planeta é um só e os recursos tangíveis (materiais) são escassos, a solução está em continuar a gerar riqueza a partir de recursos intangíveis, abundantes.

 

 

Lala é autora do livro Desejável Mundo Novo, uma ficção. Nesse mundo, inventado por ela e pessoas de 6 países, as leis são votadas pela população por meio do celular ou em terminais de transporte. A escola ajuda a escolher. A Economia gera valor além do financeiro. E as cidades são feitas para o desfrute do tempo.

– Consumir é finito. Cuidar é infinito. Se você quer saber se está preparado para o futuro, pergunte-se. Você e o seu negócio estão cuidando do que?

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Caminhada criativa. Foto : http://laladeheinzelin.com.br/

 

Tp1 – Lala, o que mais te preocupa e o que mais te assusta diante das mudanças no mundo?

Lala Deheinzelin – É muito interessante ver que tudo tem sempre dois lados. A coisa mais encantadora desse momento, é também a coisa mais preocupante desse momento. Qual é a coisa mais encantadora?  É que a gente está vivendo a maior transição da história da humanidade porque estamos em rede. A gente ainda não entende muito bem o que quer dizer isso. Mas vida em rede é como uma vida em uma dimensão a mais. É uma dimensão que é meio fora do tempo e do espaço porque na rede todos estão conectados com todos, em tempo real..

Isso traz muitas oportunidades, mas também uma dinâmica que a gente não conhece. Essa dinâmica é o EXPONENCIAL. Essa palavra que cada vez mais a gente escuta. A questão é que o mundo está exponencial. O número de mensagens ou de notícias ou de coisas pra lidar no cotidiano revela isso. Enquanto que nós (corpinho, tempo e planeta) somos lineares e aí a conta não fecha.

 

O grande encantamento está no fato de que pela primeira vez na história da Humanidade nós temos os recursos, o conhecimento, as ferramentas, as pessoas… A gente tem absolutamente tudo pra criar o mundo que desejamos. Mas o que a gente não tem é a percepção disso. É isso que me preocupa.

– Não sabemos!

A grande mídia não nos conta que tem solução. Nos conta do detalhe e do problema. Não mostra quem está conseguindo macrossoluções. Mostra os desastres, as mortes, os assassinatos… em pequeno detalhe.

Outra coisa: a única maneira de lidar com o exponencial é sendo exponencial também. E ser exponencial como? Uma parte da equação a gente já sabe. É o fato de que a tecnologia conseguiu convergir, essa é a palavra chave do exponencial, CONVERGÊNCIA.

A Tecnologia converge tempo, ela converge pessoas, ela converge dentro do nosso celular coisas que antes ocupariam um armário inteiro. Mas a tecnologia é um meio não um fim. Se a tecnologia sai na frente, ela acaba se tornando um grande problema e não uma solução, gera um desequilíbrio. É o que pode acontecer com a Inteligência Artificial substituindo boa parte dos trabalhos.

– A Tecnologia tampouco está nos fazendo mais felizes.

Quando começou toda a possibilidade de conexão em rede, as redes sociais, etc.. A gente achou que ia ficar muito feliz! Todos juntos, felizes, cheios de amigos, cheios de namorados, cheios de colaboradores. E isso, absolutamente, não está acontecendo.

Na verdade, tem números muito espantosos. O Yuval Harari, o historiador israelense, que fez Homo Deus e  Sapiens, nos mostra que se somar o número de mortes por terrorismo, guerra, violência… é menor do que o número de mortes por suicídio. Porque a gente está muito triste, muito sozinho, porque não sabe lidar com tudo isso.

Tp1 – Tem saída?

Lala Deheinzelin – Claro que tem saída! E é muito legal. Na verdade, a saída é a grande razão de ser desse momento. O grande desafio do século 21 é que a gente só vai dar conta do exponencial sendo colaborativo. A colaboração é o que equilibra a tecnologia. Só o fazer junto dá conta desse recado.

Enquanto no século 20, a autonomia estava associada a fazer sozinho (o mito do empreendedor individual, o sonho de cada um morar sozinho na sua casa…), no século 21 só vai dar certo se a gente fizer junto.

– E a gente vai sofrer um tanto até aprender isso. Mas a vida vai ser extraordinariamente melhor quando a gente aprender a fazer junto.

Já imaginou, por exemplo, um prédio.  Se em vez e cada um ir ao supermercado, cada um  passear com o cachorro, cada um pensar o que fazer com tia velinha que tá sozinha… Já pensou se houver colaboração?

A cada período um vai no supermercado pra todos, um passeia com o cachorro pra todos, um junta as velinhas que estão sozinhas no prédio e assim vamos?

E isso em todos os âmbitos. O encantador é que é possível ser exponencial e solucionar tudo, e o assustador é que só a tecnologia sozinha, sem a colaboração, sem a parte humana, sem o social, vai nos levar para um lugar de mais escassez e mais infelicidade.

Toda a nossa ênfase deveria estar, nesse momento, em equilibrar isso, investindo maciçamente em processos de colaboração, de aprender a fazer junto.

 

Tp1- E o que é exatamente investir nisso? Pensando em pessoas, empresas e cidades. É uma mudança de cultura. Por onde começar?

Lala Deheinzelin -De uma maneira geral a gente precisa, antes de mais nada, perceber que isso é uma TRANSIÇÃO e não uma crise. Não dá mais pra fazer do mesmo jeito. Se a gente não se preparar, vai ter problema.

Pessoalmente isso quer dizer desenvolver a percepção, não achar que a tecnologia é uma solução em si. Trabalhar muito a questão dos sentidos (porque o que é sentido faz sentido).

Profissionalmente é não se iludir com a PROPOSITITE, que é essa doença que está assolando, que todo mundo chuta o pau da barraca, larga o emprego, sem ter lastro pra isso.  É o que a gente está trabalhando nas formações da Fluxonomia. É preciso se preparar para a transição.

Do ponto de vista das instituições, elas têm que se adaptar muito rapidamente para sobreviver.

52% das empresas que estavam na lista das 500 mais, na revista Fortune no ano 2000, já em 2014 não estavam mais.

Como é que eu preparo pessoas pra isso? Como é que eu integro áreas em células de inovação? Como é que eu passo de planejamento para coordenação? Como coloco a COLABORAÇÃO como prioridade número um?

(O que é totalmente diferente daquilo que a gente está acostumada, porque fomos preparados para competir e não pra colaborar).

Hoje é preciso compreender que a competitividade tanto de um profissional, quanto de uma organização está na capacidade de colaborar. Ter pessoal colaborativo, áreas que colaboram.

No macro, como gestão pública, a tendência é que o Estado mude para um Estado Facilitador que articula as partes, que não é apenas um fornecedor.

Uma experiência interessante são as Sharing Cities ( Cidades Compartilhadas, um programa financiado pela União Europeia que estimula a colaboração entre indústria e cidades no desenvolvimento de soluções acessíveis, inovadoras, com alto poder de mercado para beneficiar municípios e contribuir para a formação das chamadas Comunidades Inteligentes. Visite o site).

Uma pesquisa realizada na Holanda, há 3 anos, sobre experiências colaborativas, mostrou que o número delas já é exponencial, não dá mais pra contar quantas são. A tendência mundial é organizar a vida através da colaboração.

Mas isso não é simples. Por isso que o nosso trabalho é criar as ferramentas para que isso ocorra nos níveis pessoal, empresarial e de gestão pública.

Tp1 – O que é uma cidade criativa? Porque investir em políticas para a Economia Criativa?

Lala Deheinzelin -Talvez um dos primeiros exemplos de cidade criativa é Nova York. Era deteriorada, violenta… Lançou, acho que nos anos 70, a campanha Big Apple, pra se tornar um lugar desejável, O LUGAR pra onde todo mundo quer ir. Hollywood também é uma cidade criativa!

No Brasil, Cabaceiras, na Zona do Cariri, onde não chove nunca. A cidade foi estigmatizada, não queriam nem emplacar carro lá, os jovens iam embora. Era uma cidade parada no tempo. E esse fato foi transformado numa coisa que dá resultado. Se transformou num polo de produção audiovisual, onde foram gravadas várias séries e filmes que precisavam de cenários de cidades do século 19, do começo do século 20. Hoje os meninos não vão mais embora, tem orgulho dali. Aí você vai mudando a leitura, do ponto de vista cultural, transformando o que era um problema em solução.

Cabaceiras, Paraíba. Foto: Portal Nova.

Aí em Londrina, numa praça, tem um cara que vende bombons e bolos. Tudo o que ele possui pra vender é uma caixa de isopor, onde ele escreveu “O MELHOR DO MUNDO”. Ele tem um sorriso de ponta a ponta, uma lábia inacreditável. Me deu uma aula de Economia Criativa, eu levei esse cara pra dentro da sala na última palestra que dei aí. Ele é incrível.

Tp1 – Porque ser uma cidade criativa?

Lala Deheinzelin – O Paraná não tem uma tradição como tem o Nordeste, por exemplo, onde cada cidade se diferencia por uma razão.  E o estado também.

O diferencial do Paraná é inovação, mas é um dos estados com maior número de municípios. Como eu vou escolher um ou outro?

O que é que Londrina tem? Londrina tem, por exemplo, músicos incríveis (eu trabalhei com alguns deles, como Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e Carlos Careqa). Londrina tem uma vida cultural muito intensa…Chama Londrina por causa de Londres…

Se uma cidade trabalha o seu próprio orgulho e o orgulho dos outros em torno disso, já é um bom ponto de partida, que acaba trazendo resultado em todas as dimensões.

Resultados culturais, de mudança de mentalidade; resultados estruturais (as pessoas têm maior disponibilidade para estruturar processos de compartilhamento); resultados sociais de redução de violência; e resultados financeiros, de maior oportunidade de trabalho, porque o que sai dali tem valor.

A questão não é por que eu devo fazer da minha cidade uma cidade criativa. A questão é que se eu não fizer, ela não tem, absolutamente, nenhum futuro.

Uma cidade criativa sabe o que tem de único, de especial, daquilo que é desejável pelos cidadãos, do resto do estado, do país. Sabe quais são os atributos que pode comunicar.

Se a cidade não tem isso, tem problemas.

 

 

 

 

 

 

 

 

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