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A peleja

A peleja

Por Tony Hara –

O surgimento de Diógenes na cena filosófica se dá quando Platão formula a sua teoria,
que tinha como ponto de partida a existência de um mundo transcendente, metafísico,
chamado “Mundo das Formas” ou “Mundo das Ideias”, que seria muito mais real do que o
mundo revelado pelos sentidos. Só para lembrar, a própria palavra teoria, theorein para os
gregos, significava justamente ver, olhar, observar. Um olhar que alcançaria aquilo que está
além do visível.

É claro que o filósofo cão, um animal humano que fareja mais do que vê e,
que confia em seus instintos e sentidos, não poderia concordar com essa pretensiosa
fantasia idealista.

O acontecimento Diógenes se dá, portanto, justamente no momento em que a
tendência humana de preferir a ideia que se tem da realidade à realidade mesma, encontra
uma expressão, uma fórmula, uma teoria. Daí a percepção de Peter Sloterdijk, de que
Diógenes foi o primeiro ato de resistência à filosofia idealista, metafísica, transcendental.
E isso não é pouco.

Porque a criação de mundos em um além qualquer tem um efeito
perverso, diagnosticado por Nietzsche. É que abrimos mão da força e da obstinação
necessárias para compreender o mundo efetivo. Avaliamos o mundo efetivo com suas
imperfeições e conflitos a partir do mundo ideal que só existe na cabeça dos teóricos ou na
lábia dos vendedores de paraísos. O resultado é a difamação: “Esse mundo não tem jeito!
Esse mundo não presta!” Só que esse mundo que não presta e que não tem jeito é o único
mundo que temos.

Uns discursam sobre a verdade especulada no mundo das formas puras. Outros vão
viver um mínimo de verdade, vão praticar um discurso verdadeiro, colocar a verdade a
prova da vida. Platão versus Diógenes. Um encontro mais lendário do que histórico, que
coloca frente a frente dois estilos de viver e filosofar.

O processo da verdade se polariza: de um lado a falange da grande teoria discursiva, e de
outro, uma trupe de atiradores satíricos-literários. Com Diógenes, começa na filosofia
europeia a resistência ao jogo viciado do “discurso”. Desesperadamente alegre, ele se
defendeu contra a “verbalização”. Seja como monólogo, seja como diálogo, Diógenes
fareja na “teoria” a trapaça das abstrações idealistas e a insipidez esquizoide de um pensamento puramente cerebral.

As flechas mortais da verdade alcançam os recônditos onde as mentiras, por trás das autoridades, se julgam imunes. A partir do instante em que a filosofia não é capaz de viver o que ela diz senão de modo hipócrita, é preciso insolência para dizer o que se vive. Numa cultura em que os idealismos empedernidos fazem da mentira a forma de vida, o processo da verdade depende da existência de pessoas suficientemente agressivas e livres (“descaradas”) para dizer a verdade.

Peter Sloterdijk, Crítica da razão cínica.

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Platão havia definido o homem como um animal bípede, sem asas, e recebeu aplausos por
isso; Diógenes depenou um galo e o levou ao local das preleções, dizendo: “Eis o homem
de Platão!”.

Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres .

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“Certa vez, Diógenes pediu a Platão que lhe enviasse três figos secos de seu jardim. No
entanto, Platão enviou não três, mas uma cesta repleta deles. “Ah!”, exclamou Diógenes,
“esse homem tem o hábito de dar mil respostas quando alguém lhe faz apenas uma
pergunta!”

Estobeu.

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Certa vez Diógenes pediu vinho e alguns figos secos a Platão. Platão mandou-lhe
prontamente uma ânfora cheia de vinho. “Se alguém te perguntar qual é a soma de
dois mais dois, o que responderás?”, indagou Diógenes. “Vinte? Pois parece que tu
nem dás o que te pedem, nem respondes conforme questionado”. E assim
escarneceu de Platão como alguém que fala sem parar.
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Referindo-se a Platão, Diógenes disse: “Que pode nos oferecer um homem que tem
dedicado todo seu tempo a filosofar sem nunca haver incomodado a ninguém?”.

Estobeu

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Quando Platão discursava a respeito das ideias e servia-se de nomes como “mesidade” e
“tacidade” [ou seja, a qualidade daquilo que é mesa e daquilo que é taça], Diógenes disse:
“Eu, Platão, vejo a mesa, vejo a taça, mas a ‘mesidade’, a ‘tacidade’, de modo algum”; “Isso
é lógico”, disse Platão, “pois tens olhos para ver a mesa e a taça, mas não tens mente para
perceber a mesidade e a tacidade”.

Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres .

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Neste encontro entre Diógenes e Platão, temos um exemplo da oposição entre o
Cinismo, com sua ênfase no concreto e individual, de um lado, e, do outro, o
Platonismo, com seu postulado de um mundo transcendente de Formas Ideais,
muito mais real que o mundo relevado pela percepção do senso comum.

Luis E. Navia, Diógenes, o cínico.

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Diógenes era contundente em suas manifestações de desprezo por seus contemporâneos.
A preleção de Platão era perda de tempo; as representações teatrais nos festivais
dionisíacos, grandes maravilhas para os tolos; e os demagogos, servos da plebe.

Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres .

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Durante o dia Diógenes andava com uma lanterna acesa dizendo: “Procuro um homem!”.
Certa vez ele estava imóvel sob forte chuva; enquanto os circundantes demonstravam
compaixão, Platão, que estava presente, disse: “Se quiseres compadecer-vos dele, afastai-
vos”, aludindo à sua vaidade.

Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres.

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Alguém perguntou: “Que espécie de homem pensas que Diógenes é?”. A resposta de
Platão foi: “Um Sócrates enlouquecido”.

Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres .

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Nada resta a Platão senão difamar seu adversário estranhamente desagradável e incômodo.
Ele o chama de um “Sócrates enlouquecido” (Sokrates mainomenos). A sentença tem
intenções devastadoras, mas acaba sendo um supremo reconhecimento. Ela deixa claro
que, com Diógenes, algo de inquietante e, todavia, necessário acontece com a filosofia: na
filosofia do kynikos aparece uma posição materialista que está à altura da dialética idealista.

Peter Sloterdijk, Crítica da razão cínica.

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