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BEBEDORES DE LEITE, COMEDORES DE QUEIJO: DÊEM UM MUITO OBRIGADO À UEL

por Marcelo Frazão
LONDRINA – Se você toma leite ou iogurte, se come manteiga ou queijo nacional, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) acaba de ajudar a sua saúde.
Aliás, já fazia isso antes e, provavelmente, você nem percebia.
Por isso, iniciamos uma série de reportagens com a hashtag #oquequeaUELtem. É para nos juntarmos à hashtag #forçauel.
Se você digitar essas hashtags na barra de endereços do Facebook, terá a lista completa de tudo o que for marcado dessa maneira na rede social. São textos, fotos, vídeos e comentários.
Comer melhor é UM DOS ALVOS do Tp1. Além de escrevermos, falarmos, gerarmos conteúdos em vídeo, áudio ou por escrito, ofertamos mais.
Com a gente, levamos moradores de Londrina a locais onde onde são cultivados alimentos sem veneno em Londrina. É para o pessoal ver de perto – não só a gente, como jornalista do Tp1.
Se quiser participar de coisas assim, deixe seu e-mail na capa do site e faça parte da nossa lista de moradores.
Nessa jornada, também ajudamos produtores interessados em produzir sem veneno a obter a certificação de orgânicos. Foi por isso que apresentamos a família Rampazzo, de São Luís, ao Núcleo de Agroecologia (Neagro) da UEL.
O Neagro deu toda a orientação técnica para os Rampazzo. Em breve, após um ano de trabalho, estarão certificados.
Mais recentemente, passamos a dar suporte aos produtores de Londrina para abrirmos, com aval do poder público municipal, a 1ª Feira Pública de rua do segmento aqui na nossa cidade.
Hoje, já temos a Feira Orgânica da Vila, na Rua Uruguai com a Venezuela. Mas ela quer ser maior e juntar mais gente ainda.
Então, para estimular todas as partes do processo, conectamos e damos visibilidade a quem ensina, a quem planta/comercializa e a quem tem interesse em comer melhor.
E é aí que entra o leite.
Mesmo não sendo um convicto consumidor de leite, a humanidade é movida a ele.
Leite é agro. Leite é pop.
Efetivamente, leite importa.
E a Universidade Estadual de Londrina (UEL), mais uma vez, está “até o pescoço” nisso.Na terça-feira (13), dentro de uma sala normal na Agência de Inovação Tecnológica (Aintec) da UEL, a pesquisadora Vanerli Beloti e o empresário José Antônio Menotti – dono do laboratório Londrilab – selaram um contrato inédito.
Aquela solenidade simples referendava um esforço iniciado um ano antes.
Foi quando o Laboratório de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Lipoa/UEL) aceitou desenvolver uma pesquisa específica com o Londrilab para simplificar algo que é um calo para a indústria leiteira.
Ao se juntaram, Lipoa e Londrilab queriam descobrir um teste químico, mais barato e rápido, para checar todo o leite cru, antes dele ser descarregado de dentro dos caminhões de transporte para as indústrias e cooperativas.
Para adulterar o leite que entra para processamento industrial, há fórmulas específicas que servem basicamente a dois propósitos.
Geralmente, a pretensão é mascarar leite de má qualidade ou estragado  ou simplesmente aumentar o volume existente sem que isso seja notado por mudança na cor, cheiro ou gosto – pelo consumidor.
Para isso, existem de formulações químicas que usam medidas exatas de água, água oxigenada, soda cáustica, açúcar, sal, ureia e formol para adulterar o leite que segue para processamento industrial.
Você deve lembrar-se das operações Leite Compensado (2013/2014) e Leite Adulterado, quando o Gaeco de Santa Catarina fez cair a casa de algumas quadrilhas especializadas em fraudes no setor.
Foi neste “contexto” que o Lipoa/UEL tornou-se referência em pesquisas e treinamentos para detectar e combater justamente essas artimanhas no setor.
Em 2016, por exemplo, em parceria com o Laboratório de Automação e Instrumentação Inteligente do Departamento de Engenharia Elétrica da UEL, a equipe do Lipoa criou um Fotômetro Digital inovador.

Equipe de pesquisadores do Lipoa + Depto. de Engenharia Elétrica, no ano passado. Foto: SETI/UEL

Um equipamento preciso para apontar a quantidade de água presente no leite. Basta um teste de luz com resultado praticamente instantâneo.
Agora, a aliança do Lipoa com o Londrilab serviu para descobrir, patentear e licenciar o uso – para o Londrinlab – de um reagente químico capaz de exibir a presença de formol em 1 ml de leite em só 5 minutos.
O formol é especialmente preocupante por ser cancerígeno.
O nome da solução: Formol Free.
“Não há mais motivos para deixar de fazer testes que indicam formol no leite”, comemorou a pesquisadora Vanerli Beloti, na assinatura do contrato, diante de uma pequena plateia com os pesquisadores, mestrandos, doutorandos, membros da Aintec, da empresa, da Acil e da reitoria da UEL.
“Conseguimos criar um teste que pode ser feito na plataforma onde o leite chega”, explicou, contrapondo o Formol Free ao formato atual de prova, revelada apenas em laboratório.
As leis sanitárias de inspeção brasileiras exigem que o leite de cada um dos tanques de cada caminhão originado dos produtores seja testado antes de descarregar na etapa industrial.
Hoje, o teste pode levar até 1h30 para ser realizado dentro dos laboratórios das indústrias e cooperativas – como a Confepar de Londrina, por exemplo.
Agora, tudo poderá ser feito ao lado do caminhão.
Só depois é que o leite pode se tornar iogurte, leite em pó, leite de saquinho, de tetrapak, manteiga, requeijão, bebidas lácteas e uma infinidade de subprodutos.
Sem o “ok” para o teste do formol, o caminhão nem descarrega e tudo precisa ser jogado fora.
No país, há mais de um milhão de produtores de leite cru. Deles, partem 30 milhões de litros de leite/por dia que precisam ser testados antes de entrar na indústria.
Para eles é que foi criado o Formol Free.
O rótulo do Formol Free: com logo da UEL e tudo

O rótulo do produto – frascos de 60 ml, 100 ml e 250 ml – tem o nome e o logotipo da própria UEL. O nome do Londrilab, claro, está lá também.
A criação do Formol Free foi acompanhada de perto pela Agência de Inovação Tecnológica (Aintec) da UEL.
A Aintec providenciou registros de patentes e licenciamento da descoberta, bem como agiu como “mediadora” para que a entrada do parceiro privado significasse também ganhos para a universidade.
O laboratório Londrilab investiu com o Lipoa porque comercializa kits para testagens de produtos no setor alimentício – e a checagem da qualidade do leite é importante na carteira de negócios da empresa. Os testes atuais – além de mais demorados para revelar o resultado da prova – são fabricados fora do Brasil e importados.
“A universidade ajuda a gente com conhecimento que vai nos permitir ampliar um novo mercado e nós ajudamos a universidade a espalhar algo que pode trazer benefício para a sociedade”, avalia José Antônio Menotti, proprietário do Londrilab.
Inicialmente, o termo de cooperação previa pesquisas durante um ano – mas o grupo do Lipoa – formado por mestrandos, doutorandos e funcionários técnicos na UEL – liderados pela pesquisadora Vanerli, entregou a “descoberta”  em apenas 6 meses. A pesquisa também teve participação da doutora Suzana Nixdorf, do Departamento de Química.
COMO FUNCIONA
Em contato com o leite, o reagente não pode provocar a cor amarela na amostra – este é o indicador do formol. A “mágica” acontece em menos de 5 minutos, com apenas 1 ml de leite e outro 1 ml do reagente. Sem contabilizar logística, lucro, propaganda, etc, cada teste não deve passar de R$ 3.
O Londrilab sabe que tem um mercado do tamanho de um oceano azul para os frascos que vai fabricar e colocar para análises nos laticínios espalhados no Brasil.
O nome Formol Free foi escolhido para também mirar nos mercados latinos onde a qualidade do leite, como no Brasil, ainda é um tema para consumidores e autoridades sanitárias.
José Menotti (Londrilab), Vanerli, Edson Miúra (Aintec) e Clodoaldo (Londrilab): produto inventado pela UEL vai ganhar escala com empresa

Quanto mais o Londrilab vender a descoberta, melhor. De acordo com o contrato, a UEL recebe oryalties de comercialização. O que a universidade receber será dividido para investimentos no próprio Lipoa e nos departamentos relacionados às pesquisas e para um fundo da universidade para bolsas de iniciação científica – capazes de financiar alunos em novas pesquisas, que já estão em curso.
“É uma maneira justa do pesquisador desenvolver a pesquisa necessária, com toda liberdade, em temas que tem afinidade, até chegar a soluções escaláveis comercialmente com o apoio de empresas”, explica Tatiana Fiúza, gerente da Incubadora da UEL/Aintec.
A Londrilab é dona da patente do Formol Free e de mais um outro reagente da mesma linha, também originado na pesquisa.
A produção industrial do Formol Free já pode começar. O contrato com a UEL prevê o direito de licença de exploração do produto por 20 anos, a partir do registro da patente.
À frente da conquista, a pesquisadora do Departamento de Veterinária afirma que a UEL poderia fazer muito mais se tivesse mais atenção da sociedade – e não apenas do governo.
“Diferente do que muita gente pensa, a UEL não desenvolve mais pesquisas ainda porque falta pessoal para dar suporte naquilo que é importantíssimo justamente para a sociedade”.
“Isso não é sobre privatizar nada. São situações como essa que deixam muito claro o papel da uiversidade pública para a sociedade”, defendeu Edson Miúra, diretor geral da Aintec. “É uma agenda muito positiva para a instituição em um momento como esse”, definiu.
PERGUNTA-RESPOSTA
para Vanerli Beloti, 31 anos de pesquisas com leite na UEL
Depois de tantos anos pesquisando fraudes no leite, você arriscaria dizer que é possível confiar no que compramos?
“Acho que a gente está melhorando muito. Creio que os consumidores podem consumir leite e derivados com certa tranquilidade, pois quando ocorre algo, todo mundo fica sabendo e tem grande repercussão na sociedade. Ninguém quer comer carne estragada ou leite com soda e água oxigenada. São casos isolados. No nosso laboratório analisamos a produção de leite de toda a região Norte do Paraná e que vai para o programa público Leite das Crianças. Nas empresas que produzem o Leite das Crianças, também analisamos e comparamos com o leite que eles produzem para o mercado e os consumidores comuns. E, nos últimos anos, não encontramos nenhuma fraude. É um ótimo sinal.”

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