whats (43) 9 9156.9145

À EMPRESA DE LIXO DE LONDRINA: APENAS CONTRATEM O RODRIGO DOS SANTOS !

Se você acha que a profissão de lixeiro em Londrina existe como sinônimo de falta de opção, precisa ouvir o depoimento do Rodrigo dos Santos

por Marcelo Frazão

Londrina – A vida dá voltas e te cutuca quando você menos espera.

Mas é aquilo também: quando você age, algo reage em resposta. Se fica parado, a cidade em volta também fica. Em qualquer lugar é assim.

São 16h, o dia está quente, mas até agradável para um janeiro. Da porta da empresa privada que coleta o lixo de Londrina, na zona sul da cidade, avisto três homens conversando.

Estão embaixo de uma árvore, lado de fora da empresa.

Suponho que são trabalhadores dali, o que me interessa. Motoristas e coletores sempre têm toneladas de histórias. Sabem demais do sistema porque, quando as licitações se encerram e trocam-se as empresas de coleta, todos os funcionários são imediatamente absorvidos pela próxima. Meio que automático.

Me aproximo e começo a conversar.

Estou diante do coletor Jair e do motorista Edson – ambos com larga experiência na coleta do lixo das casas de quem mora em Londrina e Ibiporã.

Imagine que quando se é coletor ou motorista de um diabo de um caminhão de lixo da coleta pública na cidade, uma certeza há: com tantos anos de profissão, muito provável que você já tenha passado na porta da casa de todas as pessoas.

Uns 250 mil imóveis, em mais de cinco mil ruas.

Dentro de casa, se você gera lixo em qualquer canto de Londrina, é visitado por um caminhão com um motorista e três coletores.

E, veja só: mesmo que você nunca pague IPTU na vida e seja um caloteiro da Prefeitura, a coleta de lixo é, sem dúvida,  um dos poucos serviços que não te será negado por isso. Nenhum caminhão NUNCA deixará o seu lixo na porta, para trás, porque você não pagou o carnê do IPTU de Londrina.

Pois bem. Acompanhe.

Converso com os três, tentando “arrancar” algum “causo do lixo”. Volto-me para o único que não estava de uniforme.

Sujeito forte – uns dois de mim – negro, vestido de camisa pólo, calça social e sapatos. Uma tentativa de esporte-fino, talvez. Mas, na porta da empresa de lixo?

O cara olhava fixo os caminhões de lixo estacionados lá atrás, no pátio da empresa.

– E você? Já trabalha aqui? – eu quis saber.

– Não, não… Quero trabalhar. Vim aqui pedir para voltar a ser lixeiro.

– Como assim, você já foi?

– Trabalhei com lixo em 2012 e 2013.  Agora, mais ultimamente, eu estava em um supermercado. Só que não quis mais. Aquilo lá não é para mim não.

– Mas como uma empresa de lixo é melhor que as bancas de um hortifruti de mercado?

– É que prefiro essa liberdade aqui do caminhão do lixo.

E voltou a mirar os caminhões.

Fiquei surpreendido porque, na minha ignorância, ninguém exatamente “sonha” em ser lixeiro.

Achei que era última opção, ou falta delas. Engano enorme. Entenderia logo mais que ele nem era uma exceção.

 – Vou te falar uma coisa: faz uma semana que eu sonho que tÔ na rua coletando lixo em cima do caminhão, diz.

Antes que a conversa engrenasse com mais revelações que destruíam a marretas o meu imaginário de como é a vida de alguém que trabalha com lixo, o rapaz quebra a linha de raciocínio.

– Conheço você.

– De onde, como assim?

– Quatro anos atrás você foi lá no assentamento em que eu estava, no Assentamento Nossa Senhora da Paz. Chorou quando viu as crianças junto com a dona Neusa.

Como não entendi nada, tentei puxar na memória. Tristeza, pobreza, Neusa, crianças…

Nada parecia fazer muito sentido.

– Onde você mora?

– Te conheci lá na invasão do assentamento Nossa Senhora da Paz. Você me entrevistou quando fiz meu barraco. Chorou por conta da situação das crianças.

Na vida de jornalista, após andar por Londrina praticamente inteira – do que há de pior ao de melhor – você não fica se lamentando com as coisas que testemunhou e cobriu a todo instante.

Vida segue.

Mas encontrar o Rodrigo faltando dois dias para fazer 3 ANOS daquele dia na invasão em que o entrevistei ficou para mim como algo espantoso.

Foi em 29 de janeiro de 2014 que conheci o então recém ex-lixeiro Mateus Rodrigo dos Santos.

O coletor Jair (esq) e o aspirante a coletor Rodrigo (fechando a cara para a foto) na porta da empresa de lixo

1º de fevereiro de 2017 e cá estamos novamente.

Na época, trabalhava no finado Jornal de Londrina.

Naquela semana de janeiro de 2014, exatos 234 barracos haviam surgido em dois ou três dias, lá na ponta de Londrina, praticamente onde a cidade faz a curva. Em um gigantesco terreno particular.

Não sei se você conhecia o assentamento Nossa Senhora da Paz (não confunda com a favela da Bratac, que também se chama Jardim N.S. da Paz) ou o Jardim São Jorge – um em frente ao outro , zona norte de Londrina.

O São Jorge também foi uma antiga invasão da década de 1990. Hoje é um bairro comum – e cheio de abandonos mil.

São os “últimos” aglomerados de gente na zona norte de Londrina.  Retratos reveladores do isolamento social da imensa periferia da cidade.

“Perifa” no total sentido do termo.

A lembrança daquele dia me fez retornar à extrema impotência diante de um terreno com mais de 200 famílias jogadas à própria sorte.

Ali, o máximo que dava para esperar era uma reintegração de posse obtida pelo dono.

Anos antes, ver aquele terreno particular novamente vazio já significou uma “vitória” de Londrina. Um grande programa da Prefeitura de Londrina já havia anteriormente removido centenas de famílias que estavam ali para casas populares e “zerado” a conta. Mas outras, agora, voltariam.

Aquele dia estava especialmente quente. Ainda mais lá: a invasão era em terreno descampado, que esperava a cidade chegar mais perto para ser loteado e urbanizado.

Me veio, de novo, a sensação da calça e da camisa colando no corpo no calor. Aquele terrão vermelho, em meio a barracos de compensado e lona plástica com gente suando e passando apuros dentro.

Desenhe a cena do que acontecia ali: além de adultos e velhos, muitas crianças sem qualquer condição. Sem sombra, sem água, sem vida.

Avistei uma família e fui conversando enquanto uma fumaça enorme envolvia um bebê dormindo dentro do barraco. O calor fora era uns 40º.

Dentro dos cubículos de terreno separados por paus e riscos no chão – havia até casas de papelão. Dentro, uns 10º graus de suor com certeza.

Molecada suja, descalça, desnutrida, destruída junto com os pais. Conversei com uma das crianças. Me arrependi de ser humano.

Cólera admitir aquilo na sua cidade e você ter que engolir seco. Coloquei a culpa na gente, no governo que saía e no que entrava. Quando se está diante de algo assim, a pergunta elementar é: “onde erramos em uma cidade tão boa como a nossa?”

Ter ido lá me jogou para baixo de forma tão violenta que de volta para a redação não consegui parar de chorar. Foda. Naquele dia apenas fui para casa.

Nem escrevi nada porque já era tarde e o jornal já estava quase fechado quando consegui voltar.

Dois dias depois, voltei. E umas três vezes outras.

Quando escrevi a matéria – tinha que ser curto – fiquei extremamente pesaroso. Matéria de jornal nenhuma iria corrigir, melhorar ou ajudar aquilo.

Fiquei preocupado e tenso com o que tinha presenciado – pela enésima vez .

Na hora de escrever, errei o nome do presidente da Cohab, que me deu uma resposta fria sobre a questão.

Me senti meio tolo com a minha indignação diante daquela  “certeza” governamental.

Após errar o nome do presidente da Cohab no jornal, dia seguinte ele ligou. Me espinafrou. E disse que não falou aquilo que estava na entrevista.

Pelo erro no nome, senti vergonha e pedi desculpa a ele. E engoli todo o resto junto. Tinha errado e não havia uma gravação da conversa. Impossível contestar.

O JL publicou no dia seguinte, página 3: “ERRAMOS: Na reportagem Assentamento “renasce” com 234 barracos na zona norte, publicada ontem, o nome correto do presidente da Cohab de Londrina é José Roberto Hoffman”.

(Grande problema, pensei comigo …)

Nos meus arquivos, encontrei o texto da reportagem que escrevi no finado jornal.

Sem foto.

Nela, estava o ex-lixeiro Rodrigo que agora encontrava, três anos depois, na portas da empresa de lixo pedindo um emprego em um dos caminhões.

 Olha a íntegra.

Imagino que saiu no dia 30 ou 31 de janeiro de 2014.

Assentamento “renasce” com 234 barracos na zona norte

Marcelo Frazão

O extremo norte de Londrina volta a exibir a marca da pobreza com 234 barracos de plástico, madeira e materiais improvisados onde foi o extinto Assentamento Nossa Senhora Aparecida, entre 2000 e 2012.

É a segunda ocupação de terras do ano em Londrina. Outros 160 barracos também estão erguidos no Conjunto Aquiles Stenghell (zona norte), onde permanecem.

Até 2012, dezenas de famílias moravam no Assentamento, até a remoção por projetos de habitação popular da Prefeitura. Agora, tudo como antes: diariamente, mais casebres nascem com as primeiras fossas cavadas em lotes demarcados pelos invasores.

São 16h da tarde e o sol a pino faz do calor uma sensação infernal. A água usada pelas famílias corre em uma mangueira que percorre o terreno sob o chão – passando perto das fossas – e é compartilhada em centenas de “gatos” e emendas coletivas. “Água é assim, ó”, diz Tonico, 33, sem querer dar o sobrenome, enquanto apanha um pouco com a mão para se refrescar na mesma caixa de água usada para beber. Sem sanitário, banheiro é qualquer lugar.

Deitados no chão, no meio da fumaça das queimadas para abrir o terreno, Nataly (1 ano e 4 meses) e Jaimir (4 meses) dormem profundamente e não fazem ideia do caos em volta. São netos de Neusa Ferreia, 38, cujo marido faleceu de câncer deixando com ela os quatro filhos – três deles dormindo no barraco. “O mais novo de sete anos nem tem como ficar aqui”, diz, envergonhada da condição que considera “meio sem saída”. “Não consigo mais pagar aluguel. Estou desempregada e queria um lugar para a família. Deveria ser um direito mínimo”, lamenta. Ao ouvir, a neta não se contém: “Queria estar na rua, brincando, correndo como era antes”, apela Carolaine Vitória, 7, olhos irritados da fumaça, sorriso contido pela complicada situação.

Até dezembro passado, Rodrigo dos Santos, 21, era lixeiro da coleta municipal da Prefeitura. Com a mudança dos contratos, sobrou-lhe o olho da rua. “Morar em seis dentro de uma casa pequena não dá certo. Não tenho como alugar, nem pensar em comprar. Como um estádio de milhões só para jogar bola na Copa sai rápido? Mas casa para quem precisa, não?”, indigna-se o morador do casebre demarcado no número 61 pela Cohab. “Alguém tem que nos falar alguma coisa. Podemos ficar ou tem outro lugar para a gente?”

“Não vamos tomar providência nenhuma. O terreno é particular e, ao que sabemos, os donos vão pedir a reintegração de posse”, diz >>>>Carlos Hoffmann (sic), presidente da Cohab – onde a fila de inscritos apenas em situação de risco social passa de 15 mil pretendentes a uma moradia. Hoffmann não quis revelar o nome do dono das terras: limitou-se a informar que o local pertence a “uma família tradicional de Londrina”. “Fizemos um levantamento e 95% das pessoas moram no bairro em frente. Só 2% dormem lá à noite. Quem invade não pode ter privilégio porque isso traria problemas com invasões pela cidade inteira”.

Serviço:

Roupas, alimentos, materiais de higiene e oferta de emprego: Neusa (8401-6265)

Nos dias seguintes à reportagem muita gente ajudou a Neusa e me enviou informações sobre isso.

Fiquei chateado de, no máximo, como jornalista, colocar o nome de uma pessoa na reportagem e um só número de telefone. E, ainda, tratávamos isso como “Serviço”.

Tosco.

E agora, na minha frente, estava o Rodrigo, um dos figuras que, sem nada na vida, tentava a sorte em um terreno de chão duro naquele dia quente de verão, lá no fim de Londrina.

Enquanto conversava com ele, obriguei-o a gravar esse vídeo de qualquer jeito. Ele não queria. Estava com medo do que o pessoal da empresa ia achar.

Aceitou.

E entreguei este depoimento para a empresa ver o quanto o cara merece mesmo essa vaga.

Assista:

Ei, Kurica! Apenas contrate o Rodrigo dos Santos!

Somos Londrina. Somos Todos por Um.

Leave a Reply