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NÃO É SOBRE VER $$$$ NAS PESSOAS

“NÃO sou um contador de histórias, mas todos têm histórias para contar.”

Por Celso Fernandes
*Contada durante o evento Histórias TpÚnicas sobre Londrina, AO VIVO
Celso: Deus me mande um e-mail com a resposta!
O médico Celso Fernandes: Deus, me mande um e-mail com a resposta então!

 

“SOU médico, urologista, formado há 38 anos. Nasci próximo daqui, em Porecatu – mas a minha família toda vem daqui. Sou primo do Antônio Fernandes Sobrinho, que já foi prefeito de Londrina, e a minha família está aqui desde 1935, desde a fundação da cidade.

Tenho “n” histórias como médico.

Algumas tristes, curiosas, algumas anedóticas, cômicas. E tem uma história minha – como a que todo mundo tem e talvez seja esse tipo de história que me pediram para vir contar. É simples: como o mundo dá voltas e como às vezes a gente está inserido em um contexto que a gente não gostaria.

Como médico urologista, eu trabalho e opero câncer há 38 anos – esta semana já operei pacientes – e levando a vida dentro do que me cabe. Com todos os percalços que as famílias têm – perde mãe, irmão, perde pai, se despede de um irmão… E há cinco anos, eu fazendo barba, encontrei um nódulo – cervical.

E como todo nódulo cervical e como todo cirurgião que lida com câncer, tenho que pesquisar isso. Na minha própria clínica mesmo investigamos, fiz ultrassom, fiz uma biópsia e em resumo: era um câncer.

É…

“VOCÊ muda a posição da cadeira.”

Simplesmente sai da posição de médico que faz o diagnóstico, que trata, e imediatamente vc passa a ser o outro lado da história.

Passa a ser o paciente.

E com todas as incertezas que os pacientes têm quando vc recebe um diagnóstico de câncer: A interrogação é desse tamanho!

– Qual o tempo de vida que vou ter?

– Que qualidade de vida eu vou ter?

– O que vai acontecer com a minha profissão, como médico?

– Será que os pacientes continuarão indo ao meu consultório sabendo que eu tenho câncer? Que estou tratando de um câncer?

– Como eles vão ver o meu emocional nesse sentido?

– Vão se entregar para que eu faça uma cirurgia neles?

Tudo isso vem à cabeça e parece que é um filme que está passando na tua frente. E de repente, você olha pra cima … e conversa com Deus.

E a primeira pergunta que eu fiz foi: Por que eu?

 

 “E como se eu fosse um … diferenciado dentro da sociedade, como se eu tivesse que ter algum privilégio, já que ajudo pessoas mais simples, carentes, que têm câncer…”

 

A pergunta que eu fiz a Deus foi: Por que eu?

E eu não tive resposta.

No dia seguinte, eu olha: acho que preciso formular de outra forma…

Vc não está entendendo, Deus, a minha pergunta.

Vou perguntar diferente: …prá que ‘tou tendo esse câncer? Eu gostaria de saber: Para quê?

Me manda um email! Manda algum amigo escrever um email Não precisa materializar, é complicado materializar… Me manda um email!!!! Eu vou entender! Manda um email!

Põe na cabeça de alguém para escrever, ele escreve, me envia, eu vou ler! Passei um dia inteiro na internet tentando ver uma mensagem…

…de Deus!

Eu achava que a minha comunicação com Deus era tão fácil…porque sempre no consultório eu escuto primeiro Deus, depois o senhor, na hora que a gente vai operar um paciente complicado…

…então somos parceiros: então me fala!

Naquela noite, “coincidentemente”, eu tive um sonho.

Eu estava dentro de um ambiente redondo, grande amplo… e alguém do meu lado…

 

“E de repente eu perguntei. – Onde eu estou?”

 

Eu estava dentro de um ambiente redondo, grande, amplo… e alguém do meu lado…

… eu sentia a presença de alguém do meu lado – mas sem ver rosto, sem reconhecer de quem é a voz.

E de repente eu perguntei:

– Onde eu estou?
Você está em um centro de apoio ao tratamento do câncer.

– Ah, interessante! E por que isso aqui é redondo?
Bem, por uma razão muito simples: os pacientes que tem câncer geralmente buscam os cantos, porque eles se sentem mais protegidos.

Se tivermos quatro cantos serão só quatro pacientes protegidos. Os demais não se sentirão à vontade. E por isso é redondo: porque quem tá aqui dentro, sabe que está com câncer ou acompanha alguém com câncer.

– Claro, é interessante … interessante! E esse monte de senha, para que serve isso?
Isso é para ajudar os pacientes com câncer: fisioterapia, medicamento, nutrição, psicólogo…

– E aquela sala maior lá, naquela porta?
Ali é o departamento da fé.

– Da fé? Cadê a cruz?
Não, departamento da fé. Se você tem câncer, tem que acreditar. Se for evangélico, chama um pastor, se for católico um padre, se for islamita, um shake… tem que ter fé. Quem tem câncer precisa ter fé.

– E aquela porta ali, o que é?
É um anfiteatro.

– Em um centro de apoio ao tratamento com câncer?
Os próprios pacientes que frequentaram aqui. – Interessante.

– E aquela balança ali na porta?
É o departamento jurídico.

– Departamento jurídico?
É que as pessoas desconhecem os direitos que têm quando têm câncer. É essa a função desse centro: ajudar as pessoas em tudo.

Simplificando a história, de repente estou no meio dessa sala redonda e digo:

“Olha, não estou entendendo nada disso aqui”.

 
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E a voz do meu lado, muito tranquilamente: “Ah, não se preocupa não. Quando vc terminar o seu tratamento, vc vai entender”

– Entender o quê, se tudo aqui já está feito?
Não, não. Isso aqui é só uma ideia.

E o sonho acabou.

Acordei umas 3h da manhã, transpirando…

Fui até a cozinha, tomei uma água, sentei no computador.

Perdi o sono.

Abri um arquivo e pus: Centro de Apoio ao Paciente com Câncer.

E vou escrever o quê? Me lembrei da última frase: “Quando vc terminar seu tratamento vc vai entender”.

Eu como médico, urologista que trabalha com câncer, eu já sei mais ou menos a trajetória de um paciente com câncer. Há 38 anos faço isso.

Mas eu tinha que entender. Até então eu era médico, agora seria paciente.

E aquilo ficou na cabeça….

Abri um outro arquivo e pus: “o meu câncer”.

Parecia um adolescente que ficava dia a dia anotando como importante o que ia acontecendo frente ao meu tratamento.

Foram seis meses… seis meses de quimioterapia e radioterapia.

E quando eu estava aqui em Londrina, rodeado de amigos, família, o tratamento era até que suportável – apesar das lesões de boca, de mucosa,

…perda de peso….

Cada ciclo eu perdia de 6 a 8 quilos!

Era complicado e eu achei que aquilo já era quase o fundo do poço.

Mas o fundo do poço fui conhecer em São Paulo, onde fui para um dos melhores hospitais.

Estive no Acir Camargo para fazer a segunda fase da quimioterapia e radioterapia.

E ali que fui sentir as agruras, realmente, de um paciente com câncer, sendo tratado em um hospital modelo – onde se realizam hoje 480 quimioterapias por dia e 520 radioterapias por dia!

E eu estava inserido nesse contexto.

E aí vc vê a dificuldade com que as pessoas que tratam com câncer – não que eu fui distratado, de maneira alguma! Fui muito bem tratado.

Mas…

… ninguém tinha tempo para me colocar a mão no ombro e falar:

“Olha, estou aqui com vc! Olha, o teu câncer não é tão ruim! Olha, vc já passou metade do tratamento! Conta aqui comigo!”

Nada disso…

Eu era um número.

E, dentro do aspecto médico, talvez eu não pudesse ser outra coisa a não ser um número. Porque é muita gente entrando e saindo e tratando.

O que me confortava é que às vezes … eu olhava do lado e falava: “Tem gente pior. Tem gente pior que eu. Então não tenho o direito de reclamar. Eu tô muito bem”.

Me sentia muito bem.

 
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Tendo uma esposa médica me ajudando, me auxiliando e me hidratando todos os dias – porque eu desidratava.

Amigos médicos me levavam sacos de soro e eu não desidratava.

Porque o MEU MAIOR MEDO era me internar no hospital e, com baixa resistência, pegar uma bactéria…

…a bactéria chamada KPC.

Vejam a coincidência: KPC, com “K”, vem de klebsiela, é uma bactéria mortífera, multirresistente.

E quando eu pus a sigla Centro de Apoio ao Paciente com Câncer, surgiu a palavra CAPC. E o projeto tinha que evitar isso: quando terminei o tratamento pensei nisso.

Trabalhei 15 anos no Hospital do Câncer, sabendo das dificuldades e hoje se atende aqui em Londrina 1500 pacientes com câncer ao dia.

E eu teria que tentar fazer um projeto para dar vazão como centro de apoio – não para internar, operar, fazer radio, quimio, não essa proposta – mas sim um centro onde se poderia dar respaldo não só ao paciente, mas também para a família.

O objetivo desse centro seria, em primeiro lugar:

Amenizar o sofrimento e a dor desses pacientes, levando alento às famílias e fazendo cuidados básicos multidisciplinares e lidando com as sequelas de cirurgias.

Como por exemplo: uma mulher que faz mastectomia e fica com dificuldade de locomoção do braço.

Quando vc tem um padrão econômico e social que te permita ir em um fisioterapeuta, isso melhora muito. Vc faz a drenagem linfática, te ajuda nos movimentos. Melhora muito.

No entanto, quando estou numa faixa mais carente economicamente, vem essa dificuldade. E esse centro tem que ter esse propósito.

De reabilitação.

Tem que ter nutricionistas.

Tem que ter alguma coisa que atraia essa mulher a esse centro para que ela se sinta cuidada.

Quando o homem tem câncer, a mulher vai lá e cuida do homem, da casa, da criança e do papagaio.

E quando ela tem câncer? E às vezes o homem é o único provedor…Como é que fica?

Ela continua cuidando da casa, das crianças, do marido, da comida, da família – e sofrendo!

Meu sonho é poder ajudar essas pessoas.

E digo de início: essas pessoas carentes. E quando digo pessoas carentes, não coloco o CIFRÃO NA FRENTE. É carência quando vc recebe o diagnóstico de câncer.

Vc se sente muito desprotegido.

Não é sobre a situação econômica.

A gente se sente com uma interrogação muito grande na cabeça:

– Quanto tempo vou ter?
– Vou sofrer lá na frente?
– Estou curado com isso que estou fazendo?

São perguntas que a gente não tem como responder.

E esse centro também não tem uma proposta de cura – e sim de apoio. ‘Taí o nome: Centro de Apoio.

Quando terminei o projeto, baseado no conhecimento como médico e como paciente – a experiência física e emocional – aquilo foi me dando força, pouco a pouco…

…até que cheguei em um momento e achei que estava mais ou menos com a proposta bem desenhada.

 
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No dia 4 de abril de 2013 fundamos o Centro de Apoio ao Paciente com Câncer, na Associação Médica de Londrina.

Imaginei que fossem poucas pessoas.
Tínhamos mais de 450 pessoas!

Amigos de todas crenças: espíritas, budistas, evangélicos, católicos, políticos, parentes, amigos, pacientes. E nisso quando vi tinha 450 pessoas na inauguração desse projeto.

Dois meses após a inauguração, ganhamos um terreno de 8,2 mil metros quadrados – três quarteirões abaixo do Aeroporto, fazendo parte do bico do Parque Arthur Thomas.

É uma área maravilhosa que temos em Londrina, mas com um fundo de vale complicado, que precisa de uma reurbanização.

E o projeto foi crescendo… acabei reunindo uma massa de gente querendo ajudar.

Temos parcerias com todas as universidades de Londrina – UEL, PUC, UNIFIL, PITÁGORAS. Todas.

Fiz parceria com a Fundação Fio Cruz, o maior centro de pesquisas do Brasil e da América Latina – e quero ter um centro desses aqui. Isso ainda não existe no Paraná.

E como o projeto vai crescendo, queremos também trabalhar com a medicina de prevenção.

Um dia me veio uma ideia e a gente vai gostando.

Pensei em um grande boneco como um “Gulliver”, onde estudantes desde o primário ao universitário, poderiam ver e entender o câncer em cada região do organismo de forma simples e efetiva.

Estamos fazendo um contêiner que será itinerante pelo Paraná inteiro. Vamos nas indústrias fazer prevenção.

E vamos tentar mapear que tipos de câncer temos no Paraná e em quais as regiões.

Para vcs terem ideia, somos os maiores fornecedores de câncer de fígado, pâncreas e suprarrenal do Brasil.

Baseado em quê?
Baseado na quantidade de herbicidas que possivelmente estamos usando.

Não se pode falar que isso é em detrimento daquilo.

Vamos tentar mapear e descobrir isso.

Então, vejam vcs… … hoje falo de câncer o tempo todo.

Opero câncer e no fundo isso não me incomoda tanto – acho que esqueci.

Vejo uma perspectiva muito grande e quando vejo que pessoas se aglutinam nesse projeto, isso me dá mais vontade ainda de executá-lo. E está sendo!

Temos um terreno, e daqui a pouco vamos ter que começar.
Não sei de onde ainda virá o dinheiro. O que sei é que virá.

O patrimônio maior desse centro é a aglutinação de pessoas com desejo e vontade de realizar esse projeto aqui em Londrina.

E se vcs me perguntarem: escuta, Celso, vc tem uma história para contar?

Tenho.

Tenho essa história para contar e é recente.

E com essa história eu pretendo que a gente aglutine mais e mais pessoas para ajudar e não só os carentes economicamente…

…os carentes do câncer.

Essa semente já foi lançada.

Junto com as pessoas que estão imbuídas desse projeto, tudo vai prosperar, vai crescer, florescer, vai dar muitos frutos e muita alegria porque vamos poder ajudar muita gente de forma efetiva.

Esse projeto hoje é para 700 pessoas portadoras de câncer atendidas ao dia.

Não é mais uma casa de apoio. É um Centro de Apoio.

E para que a gente possa dar vazão a essa demanda, tem que ser grande.

E maior do que isso tem que ser o coração das pessoas que ajudam e que podem estar junto.

É uma história que está sendo construída em cima de alicerces de amor e de uma experiência que passei.

E que não quero que fique comigo dentro de um quarto, em um canto, onde só eu curta o meu tempo.

Não.

Quero participar isso para as pessoas e cada dia mais transformar esse projeto do centro de apoio em um projeto de amor.

Essa é a minha pequena história.

 

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One thought on “NÃO É SOBRE VER $$$$ NAS PESSOAS

  1. João Almeida Nino

    Essa realmente foi uma das histórias mais impactantes do Tp1!

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